Blog do Menalton


Amai vossos inimigos

Extraído de Gedanken und Einfalle, de Heine, encontrado como nota de rodapé de O mal-estar na civilização, de Freud. Assim se manifesta o poeta:

Minha disposição é a mais pacífica. Os meus desejos são: uma humilde cabana com um teto de palha, mas boa cama, boa comida, o leite e a manteiga mais frescos, flores em minha janela e algumas belas árvores em frente de minha porta; e, se Deus quiser tornar completa a minha felicidade, me concederá a alegria de ver seis ou sete de meus inimigos enforcados nessas árvores. Antes da morte deles, eu, tocado em meu coração, lhes perdoarei todo o mal que em vida me fizeram. Deve-se, é verdade, perdoar os inimigos - mas não antes de terem sido enforcados.



Escrito por Menalton às 18h58
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Cenas

O costume de Isaura

 

 

    Isaura costumava chorar durante o trabalho. Ela era uma caixa bastante jovem e muito bonita, por isso nem precisava daquilo, mas, como gostava de agradar aos fregueses do restaurante, ela chorava, porque, deste modo, as pessoas saíam aliviadas de seus pesares, pensando que não eram tão infelizes assim.

    Na última terça-feira, entretanto, Isaura sentia-se muito bem fisicamente e por isso exagerou. Chorou tanto, mas tanto, que acabou molhando todo o dinheiro que tinha guardado na registradora, e a salada, ao chegar da cozinha, já vinha cozida de tanto sal.

                                        *



Categoria: Meus textos
Escrito por Menalton às 18h08
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Lançamento

                                                                  

Meu amigo Vasco Pereira de Oliveira acaba de lançar mais um livro de poemas, e, para apresentá-lo, vou roubar um pedaço da orelha de Ely Vieitez Lisboa.

No último poema que fecha esse excelente novo livro de Vasco Pereira de Oliveira, os versos resumem todas as características do poeta: ritmo, criatividade, síntese e um subjetivismo que se alteia ao universalismo. É uma pequena obra-prima: Dos sonhos quase impossíveis/há um que me capeia/ver a Terra, da Lua/em noite de Terra cheia.

Transcrevo, como amostra, o poema da página 12.

Receita

 

Como faço um poema?

Pego um pesado dicionário

e bato com ele na mesa.

As palavras vão caindo

se enfileiram, conversam, se entendem

e vão formando os versos.

 

Umas ficam pelo chão,

mas não se perdem.

Creio que formam, em silêncio,

poemas tristes que serão varridos.

 

A vassoura ainda não aprendeu a ler.

 



Categoria: Textos de amigos
Escrito por Menalton às 16h36
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Aquarelas

Iluminura 3    

 

         Sob um brando sol de outono e entre canteiros de rosas e glicínias, o general contempla o mundo.

         Do alto de seu corcel de bronze, duro, o olhar cai pesado sobre o velhinho, que, no banco em frente, sem pressa, faz as contas das coisas pequenas da própria vida.



Categoria: Meus textos
Escrito por Menalton às 20h54
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Volto ao batente

Pois é, amanhã recomeçam as aulas e hoje estou concentrado, sem vontade de conversar. Por isso, vai apenas este texto aí embaixo.

Quando vão começar as próximas férias?



Escrito por Menalton às 18h24
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CENAS

                                                         INFÂNCIA

 

 

Uma noite, ao chegar do serviço em cima de suas pernas dormentes, a cunhada a segurou na cozinha e com a voz escurecida de aspereza disse que assim não dava mais: reclamações dos vizinhos por causa de estrepolias dos dois meninos, a reforma da casa interrompida há mais de um ano, e as despesas excedentes, que vinham pesando muito no orçamento. Que desse um jeito em sua vida. Aproveitou a ausência momentânea do marido e disse tudo que vinha guardando há muito tempo como veneno espalhado por dentro de suas veias.

Os dois meninos na sala, com os primos, na frente da televisão. Era neles que a mãe pensava aflita, quase desesperada. Na cozinha pequena, as cunhadas frente a frente, muito existentes dentro da luz fria das duas luminárias, mudavam o futuro de lugar empurrando a vida com um ombro duro e pesado.

Naquela noite, ninguém, além da dona da casa, sabia por que Letícia tinha ficado no quarto sem querer jantar. E mesmo ela, Márcia, por várias vezes durante a refeição tinha perguntado a um e a outro por que será? As sobrancelhas erguidas repetiam a pergunta.

Os dois meninos comeram em companhia dos tios e dos primos aquela comida emprestada, sem nada perguntar.

                                                                  *

 



Categoria: Meus textos
Escrito por Menalton às 18h22
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Grupo de leitura

Pois é, pessoal, hoje tivemos o sétimo encontro do sexto ano de funcionamento de nosso grupo de leitura. A crônica que segue abaixo conta esta história. Aproveito para registrar o link do grupo e um link de utilidade que é o estante virtual. São mais de mil sebos ligados a este sítio. Mas antes, a crônica:

No último domingo do mês

 

 

Levantamos um pouco mais cedo no último domingo de fevereiro, pois não podíamos perder o encontro do Grupo Dom Quixote. A manhã era chuvosa e fria, com um vento oblíquo a sacudir os ramos mais altos das sibipirunas. Nos olhamos sem dizer nada, mas podíamos adivinhar o pensamento um do outro.

Na saída, minha mulher perguntou:

Você acha que vai aparecer alguém?

Não que seja um otimista de carteirinha, mas prefiro tentar. De fato, o dia não começava com cara de quem convida para uma reunião para discutir determinada leitura. Nosso encontro, todo último domingo de cada mês, atualmente acontece no Templo da Cidadania, em Ribeirão Preto. E fomos os primeiros a chegar.

Quando estava abrindo a boca para dar resposta àquela pergunta da Roseli, eis que o portão se abre e aparece um guarda-chuva apontado contra nós. Bem, pensei, sozinhos não vamos ficar.

A idéia de formar um grupo de leitura de literatura, surgiu-nos durante uma visita que fizemos, em 2002, a nosso amigo Luiz Cruz, escritor de Franca. Fomos encontrá-lo reunido com um grupo de umas quinze pessoas, todos eles com papel na mão acompanhando a leitura de uma integrante do grupo. Ficamos sabendo que se reuniam periodicamente para ler e discutir textos (contos e crônicas) produzidos por eles mesmos.

No último domingo de janeiro de 2003, lá estávamos nós, com cerca de mais umas dez pessoas, discutindo a formação de um grupo que se dedicasse a ler textos literários. Essa primeira reunião, assim como todas do ano de 2003, foi feita no ateliê da Jair Yanni, poeta e artista plástica.

Depois de algumas adaptações no modelo herdado do grupo de Franca, escolhemos o primeiro livro a ser lido. Ah, sim, porque nessa primeira reunião ficou estabelecido que leríamos textos fundamentais da literatura universal alternadamente com livros de escritores brasileiros. E a primeira escolha recaiu sobre o Dom Quixote. Ninguém conseguiu terminar a leitura em um mês, por isso tivemos de fazer novas adaptações no formato que adotamos. Teríamos sempre uma leitura anual paralela às leituras mensais.

Desde então (janeiro de 2003) até hoje, o grupo se reúne todos os últimos domingos de cada mês por cerca de duas horas: das 9h às 11h. O respeito pelos compromissos familiares é um dos ingredientes que nos tem mantido em atividade por mais de cinco anos.

Foram por volta de sessenta autores que visitamos, com suas sessenta visões de mundo diferentes, vazadas em sessenta estilos diversos, tratando de sessenta dramas humanos. Dante, Thomas Hardy, Stendhal, Cervantes, Dostoiewsky, alguns dos estrangeiros; Machado, Alencar, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Carlos Herculano Lopes e tantos outros, autores da literatura brasileira.  

Em cada reunião, começa-se marcando o dia do próximo encontro, e se escolhe o livro a ser lido no mês seguinte.

Pois bem, e como ainda festejamos aniversários, damos e ganhamos muitos livros durante o ano.

Nem todos os integrantes iniciais continuam ainda hoje, mas um núcleo de aproximadamente dez pessoas é formado por membros fundadores. Procuramos nunca ultrapassar os 15 integrantes, porque cada um deles deve ter a oportunidade de expor suas impressões da leitura. E é dessas impressões que todos nós vamo-nos enriquecendo, pois sempre aparece um detalhe que passara despercebido, uma interpretação em que não se tinha pensado, a descoberta de uma jóia que havia ficado soterrada.

Depois do primeiro guarda-chuva, em questão de cinco minutos apareceram quase todos os membros atuais.

A discussão de dois sermões de Vieira foi muito rica, pois somos de profissões variadas, com opiniões políticas e religiosas diversas. O Sermão da Sexagésima e o Sermão do Bom Ladrão foram esmiuçados até às 11h da manhã. O Padre António Vieira deve ter-se virado na sepultura, com tudo que ouviu.

Para o último domingo de março, precisamos ler Reparação, de Ian McEwan. Preciso começar logo porque tem mais de 450 páginas.

Vamos nessa?!

 



Escrito por Menalton às 18h29
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