Blog do Menalton


Iluminura

 

         Entre dois mantos azuis, um barquinho de vela branca. No alto, o céu tranqüilo onde navegam suas irmãs; em baixo, o mar sossegado onde se reflete.

         Pouco acima do horizonte, espessa nuvem escura espreita sorrateira.



Categoria: Meus textos
Escrito por Menalton às 17h26
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Revista literária

P r o j e t o   P o r t a l

 

A revista Portal Solaris — primeiro número do Projeto Portal, coordenado por Nelson de Oliveira — traz contos inquietantes que vão do universo da ficção científica ao do fantástico, passando pelo da fantasia.

São catorze narrativas sobre novas tecnologias, viagens no tempo, ciberespaço, telepatia, contatos imediatos do terceiro grau, pós-apocalipse, pós-humano, utopias e distopias, de dez autores contemporâneos de sete Estados brasileiros.

O Projeto Portal prevê seis números, com periodicidade semestral. Cada número homenageará, no título, uma obra célebre da ficção científica: Solaris, Neuromancer, Stalker, Fundação, 2001 e Fahrenheit.

Os contistas da Portal Solaris são: Ataíde Tartari (SP), Carlos Emílio C. Lima (CE), Carlos Ribeiro (BA), Geraldo Lima (DF), Homero Gomes (PR), Ivan Hegenberg (SP), Luiz Bras (MS), Mayrant Gallo (BA), Roberto de Sousa Causo (SP) e Rogers Silva (MG).

 

 

P o r t a l   S o l a r i s

 

revisão: Mirtes Leal      diagramação: Raquel Ribeiro

capa: Teo Adorno      formato: 16 x 23 cm

impressão: uma cor      tiragem: 200 exemplares

 

oliveira.e.cia@uol.com.br

 



Categoria: Resenhas
Escrito por Menalton às 15h26
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A criação do mundo

A palavra

 

Duas vezes foi criado o mundo: quando passou do nada para o existente; e quando, alçado a um plano mais sutil, fez-se a palavra. O caos, portanto, não cessou com o aparecimento do universo; mas quando a consciência do homem, nomeando o criado, recriando-o portanto, separou, ordenou, uniu. A palavra, porém, não é o símbolo ou reflexo do que significa, função servil, e sim o seu espírito, o sopro na argila. Uma coisa não existe realmente enquanto não nomeada: então, investe-se da palavra que a ilumina e, logrando identidade, adquire igualmente estabilidade. Porque nenhum gêmeo é igual a outro; só o nome gêmeo é realmente idêntico ao nome gêmeo. Assim, gêmea inumerável de si mesma, a palavra é o que permanece, é o centro, é a invariante, não se contagiando da flutuação que a circunda e salvando o expresso das transformações que acabariam por negá-lo. Evocadora a ponto de um lugar, um reino, jamais desaparecer de todo, enquanto subsistir o nome que os designou (Byblos, Carthago, Suméria), a palavra, sendo o espírito do que ─ ainda que só imaginariamente ─ existe, permanece ainda, por incorruptível, como o esplendor do que foi, podendo, mesmo transmigrada, mesmo esquecida, ser reintegrada em sua original clareza. Distingue, fixa, ordena e recria: ei-la.

  LINS, Osman. Nove, novena. 4ª. ed. São Paulo: Cia. das Letras, 1994, p. 98.



Escrito por Menalton às 12h47
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Cenas

O último ônibus

 

 

   Amadeu estava parado na plataforma, muito treinado e esperançoso. Viu todos os ônibus chegarem despejando sonhos e tentou gravar pelo menos a metade de cada fisionomia. O sorriso no olhar ou o medo em seu lugar. Era assim que os classificava tentando entender, firme em sua espera.

   Os carregadores perturbavam os vendedores, que, clandestinamente, rogavam pragas hediondas, só comparáveis ao caos da plataforma. Os carregadores passavam com malas e embrulhos, pacotes, raspando nas pernas de quem esperava. Essa era uma atitude irresponsável, inteiramente, confabulavam entre si.

   Foi então que Amadeu enfiou as mãos nos bolsos da calça, e abriu o equilíbrio nas duas pernas. Assim estava melhor. Havia um início de tumulto, em que os vendedores já não se importavam com mais nada e os carregadores deixavam seus carrinhos enfileirados, adormecidos. As luzes retiravam-se para seus aposentos.

   O último ônibus chegou envolto pelo olhar de Amadeu e ele percebeu que estava completamente vazio.

                      *



Categoria: Meus textos
Escrito por Menalton às 09h18
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Crônica

Oh, dúvida cruel

 

Tenho vivido um estado de angústia permanente de uns tempos para cá. Antes o assunto não entrava nas minhas cogitações, que são, geralmente, umas cogitações muito simples, que consigo resolver sem grande esforço mental. Sabia, de forma bastante vaga, tratar-se de um ano eleitoral, mas isso, até certo ponto, não me dizia respeito. Não sou contra as eleições, que os deuses todos do Olimpo me livrem dessa falha. Mas no momento tinha outras preocupações, todas de naturezas bem diversas, e a eleição ficava parecendo-me uma coisa muito remota.

Então aconteceu. O jornal veio parar na minha escrivaninha e estampava, em sua terceira página, a fotografia de seis candidatos à chefia do executivo municipal. Reparei bem nas fotografias aqueles rostos de feições agradáveis a inspirar a nossa confiança. Pronto: acabou o meu sossego. Qual deles escolher? Todos eles bem nascidos e bem lavados, pessoas da mais alta respeitabilidade cada um deles. Eis a origem da angústia em que tenho vivido.

Conheço os seis candidatos, mas não via em que um poderia ser melhor do que o outro, e isso me impedia de fazer uma escolha consciente, para o exercício sagrado da cidadania. Plagiando o bruxo do Cosme Velho, moro longe e saio pouco. Uma vez, numa homenagem de alunos, me deram de presente um tatu de madeira que balança a cabeça. Mantenho esse tatu sobre minha escrivaninha até hoje. Não saio muito da toca.

Pois bem, nesses últimos dias de férias, vi-me obrigado a sair várias vezes de casa. Pagamento de um boleto no banco, visita periódica ao dentista, passagem pelo médico, uma carta no correio. Essas coisas todas que nos atrapalham a vida, mas que todo mundo faz. E sem reclamação, a não ser quando se é ranzinza.

Na segunda-feira da semana passada, ia passando pela avenida quando uma janela de automóvel baixou rapidamente. Quem eu vi lá dentro que me via cá fora? Isso mesmo. Um dos seis candidatos. E ele me cumprimentou com um sorriso tão simpático, tão amigo que na mesma hora pensei: é ele. Dormi melhor na noite de segunda pra terça do que vinha dormindo as noites anteriores. Um sono sem a angústia de não saber a quem dar meu voto.

Na terça tive de sair novamente. Eu estava na fila do banco, sossegado, quando alguém me deu uns tapinhas nas costas. Qual não foi minha surpresa ao descobrir que outro candidato me reconhecia. Não só isso. Apertou com afeto minha mão e me teceu uns elogios com tanta ênfase na frente de outros da fila que fiquei encabulado. Ele fez questão de me dar um abraço. E abraçado fiquei. Horas depois, já em casa (o melhor lugar do mundo), ainda sentia o aperto de seus braços em minhas costelas. Mas ele demonstrou tal felicidade ao me ver que não tive mais dúvidas: é este.

Do terceiro ao sexto, todos eles me abanaram a mão, sorriso com extrema simpatia, me ofereceram cargo na prefeitura, prometeram fazer tudo que eu quisesse. Quando escolhi o sexto foi que me dei conta. Eu tinha passado pela lista inteira.

Minha angústia agora voltou e mais forte do que antes. São todos eles pessoas tão simpáticas, todos eles demonstram ter-me em tão alta consideração que a escolha se tornou novamente impossível.  

 



Categoria: Meus textos
Escrito por Menalton às 09h16
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