Gingle bells
Questão de quantidade
E cá estamos nós, novamente, preparando-nos para o balanço e a retrospectiva. Além de um exercício de memória, a ocasião deveria ser também oportunidade para exame de consciência. Se nos examinássemos mais, se conversássemos mais com nosso travesseiro, é provável que conseguiríamos melhorar um bocadinho, e, em matéria de melhora, qualquer uma é boa, não é verdade? Pelo menos estaríamos desmentindo esses apocalípticos todos que não param de proclamar o fim do mundo, coitado, em senda descendente e irreversível. Mas não. Nossos balanços são sempre questões de quantidade. Observem o que dentro de um mês, mais ou menos, vai começar a aparecer na mídia, e veja se não tenho razão.
Em 2005 a indústria automobilística produziu tantos automóveis a mais ou a menos do que o ano anterior, mantendo ou alterando a média dos últimos dez anos. Alguém comenta a qualidade dos automóveis? A verdade é que medir qualidade é uma coisa muito difícil, é matéria de filosofia. E é com o auxílio da ciência matemática que geralmente medimos as questões de qualidade, que são filosóficas.
Outro balanço vai dizer que a qualidade de vida das cidades, o IDH, subiu ou desceu tantos pontos, a tanto por cento, podendo-se agora comparar àquela cidade que nos causava inveja, porque a ultrapassamos em 1% de certo índice. Tudo isso é aferido por números. Ah, sim, é uma questão difícil de resolver, questão em que muitas correntes filosóficas se têm empenhado e digladiado, desde Pitágoras. Mas quando se fala de esgoto e seus metros lineares, da saúde e a quantidade de leitos, da educação e das horas de banco escolar, eu sempre fico um tanto frustrado, pois queria mesmo era saber se a população de tal ou tal cidade hoje ri mais do que ria antes, se é mais feliz do que foram seus antepassados; se os alunos, cuja bunda tem lustrado os bancos escolares, vêm saindo mais sábios da escola, suas decisões na vida vêm sendo mais ponderadas, aprenderam a respeitar o próximo, aprenderam lições de amor.
No mundo em que vivemos tudo se quantifica e só contam os números e tamanhos. E quando se pensa em melhor, não é na bondade em si que se está pensando, mas em superioridade, ou seja, em quantidade de bondade.
Não há como um fim de ano para que se descubra tudo isso aí.
Ah, sim, e agora começam as retrospectivas e previsões.
No capítulo das retrospectivas, me parece que a palavra furacão vai ser recorrente. O ano todo viveu muitos furacões, nenhum, entretanto, que se compare ao furacão Wall Street, que promete arruinar a vida humana de todo o globo terrestre. O furacão Obama promete pôr fim à farra dos bancos e das montadoras de automóveis injetando mais bilhões nas mãos deles para que suas brincadeiras não lhes tragam maiores prejuízos. Nunca vi uma coisa destas: o capitalismo não deu certo? Porque chegar de chapéu na mão nas portas dos palácios governamentais, isso não me parece capitalismo.
O Hugo Chaves no se calla, a Europa continua vieja, o Brasil já recebe calotes, e o mundo não pára de girar: em torno de seu próprio eixo e em torno do Sol. Então chegou a hora das previsões, mas isso é coisa de profetas, e já não profetizo mais nem o passado. E como diria aquele delirante Pangloss, vivemos no melhor dos mundos.