O catolicismo não é mais aquele
Tenho um amigo, que me pede sempre anonimato, bastante atento a tudo que acontece em nosso velho mundo, do qual ele costuma dizer que vive mudando para continuar sempre igual.
Meu amigo afirma que os católicos são de uma ingenuidade inexplicável, tamanhos e tantos são os casos. E ele cita um rosário deles, dos casos, que não cabe repetir no exíguo espaço de uma crônica. Como amostra, vou usar dois exemplos. Alguns de vocês devem estar lembrados do Neimar de Barros. Esse cidadão foi bajulado, requestado, promovido, estimulado, ele foi, bom, foi quase endeusado. E quem se lembra disso é difícil que tenha a coragem de negar o que estou afirmando. Entre outras coisas, esse fraco escritor, produziu um livro de capa preta com o título de "Deus negro". Não havia paróquia onde não se encontrasse à venda o livrinho (mixuruca, por sinal) do Neimar. Cansado de tanto ganhar dinheiro, um dia o Neimar de Barros declarou em uma entrevista a um repórter que tudo que ele escrevia tinha uma só finalidade: ganhar dinheiro. Fora outras afirmações dele a respeito da ingenuidade daqueles que o liam. Foi apeado do pedestal, mas o estrago já estava feito.
Outro exemplo é o bruxo Paulo Coelho. Ele começou a carreira (depois das andanças pela música) dando um tom, como podemos dizer, exotérico a seu texto. Coisas orientais, histórias exóticas, temperos muito ao gosto popular. Mas havia uma lacuna em sua clientela: o mundo católico não ia muito com sua cara. Ora, mas isso é problema que se resolve muito facilmente. O PC da Academia Brasileira de Letras, a quem não falta dinheiro para qualquer tipo de aventura, viajou para a Europa, mais especificamente para Santiago de Compostela, e lá fez uma viagem famosa, andando a pé coisa aí de uns cem quilômetros e que é o sonho de consumo da maioria dos que professam o catolicismo. Pronto: estavam abertas as portas de mais um nicho de consumidores. A esperteza dele dá nó em fumaça. Conheço muito católico convencido de que o Paulo Coelho comunga, confessa e tudo mais.
Agora por que me veio à lembrança a ingenuidade dos católicos: o Natal, tempos atrás, era uma festa cristã. Comia-se peru, carneiro, leitoa, essas coisas, mas isso era apenas a superfície da data. As pessoas se encontravam para reverenciar o nascimento de Cristo. Havia a Missa do Galo, realizada à meia-noite do dia 24 de dezembro, havia sermões e música sacra, havia o que se pode chamar de alegria saudável, pois festejava-se com respeito o nascimento do Salvador.
Depois veio a esperteza dos comerciantes e Natal sem presentes tornou-se coisa de gente pobre. Deus que me livre de pensarem que não posso dar um presentinho, que seja. E presente onde é que se compra? Nas lojas deles, é claro. E o caráter religioso da data foi dando lugar a um mesquinho espírito comercial.
Mas a coisa não parou aí. Como é data de encontro, e de alegria, a música sacra também desapareceu do cenário. Em seu lugar, pagote, música sertaneja, tchan, música picante, cheia de malícia (coisas que antigamente se chamavam de pecaminosas). Pois bem, sabe-se muito bem que o carnaval tem uma origem pagã. Pois o Natal, aos poucos, transforma-se também em festa báquica. Vale tudo, em nome da alegria.
Pensando bem, a única diferença do Natal para o Carnaval é a fantasia. No Carnaval ninguém se veste de Papai-Noel. Pelo menos por enquanto.
Escrito por Menalton às 21h37
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
A morte do editor?
Dezembro 18, 2008 by José Saramago
Voltaire não tinha agente literário. Não o teve ele nem nenhum escritor do seu tempo e de largos tempos mais. O agente literário simplesmente não existia. O negócio, se assim lhe quisermos chamar, funcionava com dois únicos interlocutores, o autor e o editor. O autor tinha a obra, o editor os meios para publicá-la, nenhum intermediário entre um e outro. Era o tempo da inocência. Não quer isto dizer que o agente literário tenha sido e continue a ser a serpente tentadora nascida para perverter as harmonias de um paraíso que, verdadeiramente, nunca existiu. Porém, directa ou indirectamente, o agente literário foi o ovo posto por uma indústria editorial que havia passado a preocupar-se muito mais com um descobrimento em cadeia de best-sellers que com a publicação e a divulgação de obras de mérito. Os escritores, gente em geral ingénua que facilmente se deixa iludir pelo agente literário do tipo chacal ou tubarão, correm atrás de promessas de vultosos adiantamentos e de promoções planetárias como se disso dependesse a sua vida. E não é assim. Um adiantamento é simplesmente um pagamento por conta, e, quanto a promoções, todos temos a obrigação de saber, por experiência, que as realidades ficam quase sempre aquém das expectativas.
Estas considerações não são mais que uma modesta glosa da excelente conferência pronunciada por Basílio Baltasar em finais de Novembro no México, com o título de "A desejada morte do editor", na sequência de uma entrevista dada a "El País" pelo famoso agente literário Andrew Willie. Famoso, digo, embora nem sempre pelas melhores razões. Não me atreveria, nem seria este o lugar adequado, a resumir as pertinentes análises de Basilio Baltasar a partir da estulta declaração do dito Willie de que "O editor é nada, nada" e que me recorda as palavras de Roland Barthes quando anunciou a morte do autor... Afinal, o autor não morreu, e o ressurgimento do editor amante do seu trabalho está nas mãos do editor, se assim o quiser. E também nas mãos dos escritores a quem vivamente recomendo a leitura da conferência de Basilio Baltasar, que deverá ser publicada, e um seu consequente debate.
Publicado em O Caderno de Saramago | Comments Off
« Entradas Mais Antigas
Categoria: Textos de amigos
Escrito por Menalton às 06h55
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|