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Aquarelas Iluminura 9 O ônibus chegou no meio da noite com as janelas acesas, e, num instante, naquela rua quieta de tão noturna, ficou sendo dia. Mas era um dia movediço, de pouco valor, quase uma ilusão. Em seguida ele pôs-se em movimento, levando embora sua claridade. 
Categoria: Meus textos
Escrito por Menalton às 09h04
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Revide ed. 464 n. 30 
Matéria e foto publicadas na revista REVIDE de 24/07/2009.
Um homem de muitas palavras Contista e romancista, Menalton Braff povoa com emoção e conteúdo o imaginário do povo brasileiro Texto: Carla Mimessi Fotos: Julio Sian
São poucos os homens que têm o privilégio de exercer sua paixão cotidianamente. Menalton Braff é um deles. Absolutamente apaixonado pelas letras, esse escritor desfruta do prazer de trabalhar com a literatura em suas mais variadas formas: no exercício cotidiano das salas de aula, ministrando matérias correlatas; na composição de bancas, dividindo sua experiência com os mais jovens, no julgamento de concursos literários; na dedicação às suas obras, um trabalho de mergulho em si e de transcendência, a partir de cenas cotidianas que observa e transporta para as páginas prestes a serem preenchidas. O professor, contista e romancista retribui a generosidade da vida compondo personagens e universos que resultam do próprio questionamento e da contemplação do homem em meio às batalhas com o dia a dia. Assim, povoa com um misto de realidade e fantasia o imaginário dos leitores, enriquecendo-o. Para Menalton, escrever uma obra é um processo de autoconhecimento. "Às vezes, as pessoas podem pensar que alguns dos meus livros são autobiográficos, mas eu não passo a minha experiência, porém, tenho que me conhecer para poder falar do outro. Na medida em que estou trabalhando um personagem, eu me vejo diferente, semelhante, e começo a fazer um mergulho em mim mesmo. Hoje eu sei mais ou menos quem eu sou e isso eu devo à literatura", destaca. Enquanto esse mergulho introspectivo constrói personagens, o olhar cartógrafo busca mapear os sentimentos humanos frente às exigências sociais, outro aspecto que caracteriza sua obra. Nesse sentido, o autor resgata a finalidade da arte pelas palavras do sociólogo e filósofo alemão Theodor Adorno, da Escola de Frankfurt: "A arte que não problematize a realidade ou a si mesma como arte, não merece o nome arte". Dessa forma, o contista justifica seu interesse pelos conflitos e dificuldades humanas em seus livros. "Gosto de falar de duas coisas: do que me encanta e do que me espanta". Entretanto, não basta apenas ter o que dizer. Para Menalton, outro aspecto fundamental é a qualidade literária. O homem e sua relação com o meio não é uma preocupação recente do escritor. Depois que partiu de sua terra natal, Taquara, no Rio Grande do Sul, enquanto cursava o Ginasial e o Clássico, Menalton seguiu para Porto Alegre, onde tornou-se militante político, tendo que abandonar o Curso de Economia, na antiga Universidade do Rio Grande do Sul (URGS), e desaparecer como cidadão, em função da Ditadura Militar. Quando finalmente retomou seus direitos civis, Menalton emergiu já no cenário literário, em São Paulo. Cursou Letras na Universidade São Judas Tadeu, local em que daria, também, os primeiros passos rumo ao magistério. As primeiras obras do escritor surgiram nesse período: o romance "Janela Aberta" e o livro de contos "Na força de Mulher", ambos sob o pseudônimo de Salvador Passos, que o acompanharia até a publicação de "À Sombra do Cipreste", que lhe rendeu o Prêmio Jabuti 2000, na categoria Livro do Ano – Ficção. Segundo o escritor, o prêmio foi um divisor de águas: "Eu era escritor familiar e de amigos, não de muitos amigos; de repente, o Jabuti me colocou na mídia e a mídia me colocou no público. A minha carreira, mesmo, começou com o Jabuti", conta. Hoje, à iminência de lançar seu 13º livro, "A Moça com Chapéu de Palha", destaca que as grandes mudanças ocorridas em seu perfil de autor, de 25 anos para cá, referem-se à forma como utiliza as ferramentas. "Houve uma melhoria na qualidade literária, uma coisa que eu busquei desde o início. O primeiro livro é experiência, exercício, é cheio de tropeços. Com o tempo a gente percebe onde estão as falhas e vai corrigindo-as. Acredito que hoje estou bem melhor do que quando comecei", justifica. Um dos resultados desse amadurecimento literário pode ser percebido pelas alterações técnicas que o escritor imprime em cada romance. Em seu novo livro, que deve ser lançado em setembro, o personagem, um repórter investigativo, redige o primeiro capítulo do livro com intenção jornalística, de forma fiel aos fatos. No desenrolar da história, ele muda de ideia, decide escrever um romance e o faz: reescreve o mesmo capítulo, substituindo o perfil jornalístico pelo romanesco. Nas palavras do escritor, "ele se solta da realidade e mistura imaginação com a realidade, ou seja, este último romance tem algumas experiências estruturais". Essa é a nova contribuição de Menalton ao cenário literário brasileiro, um cenário rico e produtivo, mas carente de um grande novo autor, conforme ele, e, sobretudo, de leitores. Uma realidade que tem que ser modificada a partir dos bancos escolares, começando pela qualidade do corpo docente, que deve ser melhorada. "Conheço muito colega que não lê o livro e indica para os alunos, e não são poucos. Se os cursos de Letras não pegarem firme nesse aspecto da preparação do professor, fica difícil. Saem estatísticas dizendo que se lê mais, mas não melhor. Tem-se lido muito best-seller, muito livro de autoajuda e isso não é propriamente literatura", enfatiza. Para ele, não basta ler para melhorar a qualidade da leitura: tem que haver orientação, discussão e esclarecimento sobre a importância de se ler uma grande obra da literatura e esse caminho, Menalton garante, o aluno não descobre sozinho, é um caminho construído a partir de uma tradição de séculos de produção. "Quem pode orientar é quem acompanhou o itinerário da literatura. A leitura da crítica literária pode ajudar, mas não substitui a literatura porque ela provoca emoção, causa prazer intelectual", o contista destaca. Quanto aos livros de autoajuda, o autor afirma que eles nada mais fazem do que dizer o óbvio. A satisfação da leitura está no fato de o leitor se identificar com o que é dito e ver seu pensamento respaldado pelo de outra pessoa, ou seja, na autoafirmação. A utilização desse tipo de "literatura" em sala de aula por parte dos professores é totalmente reprovável, destaca Menalton. "Um professor que indica autoajuda em sala de aula está cometendo um crime porque já é muito difícil melhorar o gosto pela obra literária e ele faz exatamente o contrário. Por ser ‘inócua’, o único ganho que se tem com ela é o financeiro, que só é revertido ao próprio autor", conclui o escritor. Jogo rápido Uma influência: meu pai e Proust Um livro que gostaria de ter escrito: "Em Busca do Tempo Perdido", de Marcel ProustAutor favorito: Machado de Assis e Marcel ProustUm momento especial: o momento em que assinei o primeiro contrato de publicação de um livroUm lugar em Ribeirão Preto: o Templo da CidadaniaO que mais admira nas pessoas: a inteligência e a honestidade O que mais despreza: a falsidade e a pretensãoDo que o brasileiro mais precisa: de ética Do que ele tem que abrir mão: da ideia de que tudo é carnaval Destaques:
"Gosto de falar de duas coisas: do que me encanta e do que me espanta" "Tem-se lido muito best-seller, muito livro de autoajuda e isso não é propriamente literatura" "Um professor que indica autoajuda em sala de aula está cometendo um crime porque já é muito difícil melhorar o gosto pela obra literária e ele faz exatamente o contrário"
Categoria: Entrevistas
Escrito por Menalton às 15h36
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As muralhas de Menalton Em uma viagem pela própria ficção, o romancista Menalton Braff desvenda as angústias do homem pós-moderno Carla Mimessi Ao abrir a porta de sua casa para nos receber, naquela tarde de domingo, já dava para ter uma idéia do que estava por vir. Totalmente à vontade, com gestos lentos, trajando bermuda, camiseta, chinelo e inaugurando um sorriso largo, Menalton Braff se mostrou desnudo. Contrariando todas as expectativas, o que havia diante de nós era um homem disposto a exercer toda a sua generosidade, curiosamente sem muralhas, destituído das máscaras sociais que geralmente se constroem à iminência de uma entrevista. Fresca, espaçosa e iluminada, a casa do escritor evidencia, pela leveza dos ambientes e decoração sem excessos, que a beleza é mais dada à simplicidade que à ostentação. Tudo é harmônico, sobretudo o jardim onde desemboca toda a paisagem que descortina da porta de entrada. Foi ali, emoldurado pelo verde e pela delicadeza das flores, que o romancista nos guiou em sua viagem rumo às inquietudes da pós-modernidade, cujo símbolo maior é a globalização e a conseqüente liquidez do tempo e dissolução do espaço, movimento que se pressupunha diluir barreiras e, entretanto, não impede que, de forma antagônica, o homem erga mais e mais muralhas, sejam internas, de segregação, preconceito ou intolerância. “Quando construímos uma muralha isolamos quem está para lá ou quem está para cá? Estamos prendendo alguém dentro de um espaço ou protegendo alguém dentro de um espaço? Qual é o verdadeiro sentido das muralhas?”, questiona Braff. Munido desse incômodo, o contista e romancista lançou-se às páginas remotas da história, mais especificamente ao ano de 126, na Grã-Bretanha, para decifrar que temores se mesclam à matéria bruta na construção de muralhas como aquela erguida pelo imperador romano Adriano, para proteger seu império das investidas militares dos Caledônios (povos que habitavam a Escócia). Braff descobriu mais do que pedras e turfa: por trás da estrutura de 118 quilômetros, com quatro metros e meio de altura e dois metros e meio de largura havia uma inquietação. A ambição que leva à conquista é a mesma que expõe o império à ruína. Quanto mais expandido, mais vulnerável ele se torna, até que a única alternativa é a defesa – as muralhas. Não demorou muito para que o escritor percebesse que no centro desses movimentos contrários está a competição, o mesmo ingrediente que move, faz crescer e ruir o homem pós-moderno. Enquanto Menalton traz à luz o fio condutor que o levou à temática desenvolvida no romance “A Muralha de Adriano”, fica evidente o quanto a vivência de seus questionamentos e de sua busca por respostas se materializa ao longo das quase 370 páginas que compõem o texto. Denunciando seu estilo pós-moderno, o livro já começa com uma ruptura: a finitude humana é jogada à cara do leitor, com o enterro de Anselmo, um dos quatro personagens ao redor dos quais se tece a trama. Homem de origem humilde e boas intenções, corrompido pela vida com um simples encontro: ambicioso, se emaranha nos temores e defesas que o futuro sogro, Tiago, arquiteta para proteger seu império, a qualquer custo – a rede de supermercados Boacompra - e se lança à busca de preenchimento de seu próprio vazio, numa luta contra a angústia que não consegue vencer, apesar de tentar aplacá-la com o consumismo e a promiscuidade sexual, as muralhas que o separam cada vez mais de sua esposa, Verônica. Uma busca que só termina com sua morte, ao volante do luxuoso carro, em cujo acelerador projetava a mesma intensidade e ímpeto com que se lançava às aventuras sexuais. A mesma ruptura que o autor traz na introdução, acompanha toda a narrativa. Os personagens são construídos a partir de uma fusão do passado com o presente e na unificação do tempo, a ruptura abrupta da narrativa chega a desorientar o leitor, que fica meio sem chão e fôlego diante da fragmentação dos próprios protagonistas. Conforme, em sua construção, os personagens se relembram e se contam, muitas das máscaras caem ao chão – mais uma vez a generosidade de Braff, que não se entrega a ímpetos maniqueístas. Impossível julgar: anti-heróis, todos têm a marca de um macrossistema internalizado, que o autor traz, com desenvoltura, da esfera conjuntural para a esfera intimista. Verônica, supostamente devassa, conta a saga de uma mulher que percebe o vazio que a cerca e consome, mas não se conforma com a infelicidade; Mateus, seu tio e amante, em maior intensidade que ela se lança às inquietações e mantendo-se à margem dos negócios da família, se mune de conhecimento e chega a resgatar o passado: visita a Muralha de Adriano para destruir suas próprias barreiras. Por fim, Tiago, a personificação do império, a eterna angústia do homem pós-moderno que à mercê do capitalismo selvagem resume a própria vida a uma existência destituída de emoções e afeto, chega até a tentar submeter a filha a humilhações para defender sua rede de supermercados, tão arduamente conquistada. Sob o cetro de Wall Stret O mal-estar do autor em relação às muralhas que protegem os homens de si próprio e dos outros aparece em vários momentos da vida literária de Braff. “Minha angústia vem da convicção de que nós vivemos em uma colônia. O que vou consumir, o que vou estudar, o que vou fazer é decidido em Nova York e não no Brasil. É em Wall Stret que se salva o mundo. Minha angústia vem de saber que estamos nas mãos de uma metrópole e que vivemos em um mundo periférico. Isso me incomodou a vida toda”, justifica, em voz pausada. E para maior aflição do romancista, nunca houve tantas muralhas como neste momento. Famílias de palestinos foram divididas por uma imensa e alta muralha construída, que corta cidades ao meio; os Estados Unidos estão construindo outra, com 100 mil quilômetros de extensão para evitar as investidas mexicanas; apesar da unificação da Língua Portuguesa, ironicamente, muitos brasileiros são frustrados em suas tentativas de acesso às terras lusitanas. Os países europeus que tomaram para si toda a riqueza do mundo, ao longo de séculos, por meio do colonialismo, hoje se protegem da pobreza retirante que bate, constantemente, às suas portas. “Os povos dos paises que eles deixaram sem recursos estão tentando invadir a Europa. Todo animal busca o lugar onde tem água, comida e facilidade de procriação. Eles migram em busca da sobrevivência. Então, o mundo está globalizado? Pra quem? O mundo está cheio de muralhas, muralhas físicas, concretas, legais, como as alfandegárias, muralhas políticas”. Além daquelas que se formam com a hipocrisia das máscaras sociais. Apesar da concepção aguçada de mundo, Braff sinaliza com uma saída: ela consiste na organização social e na visão fraterna do homem em relação ao seu semelhante. “Enquanto o lucro for o regente de nossa vida, nós estamos perdidos. Enquanto o homem achar que tem que vencer em tudo, ele não terá semelhante, terá adversário”. Em meio ao pessimismo, o autor inventa Mateus que, em detrimento do poder, opta pelo saber e faz uma viagem ao passado para derrubar sua própria máscara. Ele é o contraponto à existência vazia de Anselmo, que se entrega à neurose pós-moderna e por fim se mata, envolto por seu sonho de consumo. Nesse sentido, apesar da negativa de semelhança do romancista em relação a qualquer um de seus personagens, Braff se mescla com Mateus. Em seu trajeto para a criação da obra, ele mergulha no saber e adquire uma percepção maior acerca das próprias muralhas. “Tenho certeza que tenho muralhas que eu nem imagino, mas eu luto com elas e, a cada dia, parece que venço um preconceito a mais”. Olhos: “Todo império é um império de medo” “Então, o mundo está globalizado? Pra quem? O mundo está cheio de muralhas, muralhas físicas, concretas, legais, como as alfandegárias, muralhas políticas”. Legenda: A coexistência do passado e do presente permeia todas as páginas do romance de Braff
Categoria: Entrevistas
Escrito por Menalton às 13h02
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