Blog do menalton
   E ainda À sombra do cipreste

Sobre a narrativa de Menalton Braff


Terminei de ler mais um dos contos do 'À Sombra do Cipreste' (na foto), do escritor Menalton Braff (que acho que posso ter a ousadia de chamar de amigo, dado o papo supergentil e inteligente que travamos na Bienal deste ano). Estou lendo aos poucos, porque esta época é a mais inglória para nós, professores, que tantas provas e trabalhos corrigimos, fora o chororô dos alunos que precisam de pontos e coisas do tipo. Mas aos pouquinhos, vou lendo.

'Elefante Azul' é o conto que acabo de ler. E na hora que encerrei a leitura, voltei para a orelha, intrigado com a lembrança de um trecho de outro escritor, Moacyr Scliar, que assim comenta a obra do Menalton: "Realista, Menalton Braff trabalha com personagens tirados do cotidiano, gente que todos nós encontramos na rua, no trabalho, no convívio familiar. Mas estes personagens têm segredos, vivem dilemas. E estes segredos, estes dilemas, constituem-se a matéria-prima da literatura de Menalton Braff". E conclui Moacyr Scliar: "Não é outra a função da grande literatura: através da beleza dos textos, revela-nos a verdade que está oculta em cada pessoa, em todas as pessoas".

Vamos a um outro autor, desta vez de um livro teórico, para depois voltar ao Elefante Azul. Em seu ótimo 'Livro da Metaficção', Gustavo Bernardo nos lembra de algo importante: "Toda linguagem é simultaneamente pletórica e insuficiente" (p. 11). Para quem não conhece a palavra, uma 'pletora' é, basicamente, uma superabundância nociva. Em outras palavras, o que o autor coloca é que a linguagem é sempre um falatório desmedido e jamais conclusivo sobre o que se diz. E por quê? Pelo simples fato de que a linguagem não é aquilo que ela enuncia, mas exatamente, e apenas isso: um enunciar. E então citamos de novo o Bernardo: "As conexões que estabelecemos entre as coisas e os fenômenos não existem, a não ser como ficções. (...) [São] construções mentais que preenchem os buracos da realidade, assim como preenchemos os buracos de um sonho quando o contamos para alguém e como completamos as lacunas de um romance quando o lemos" (p. 23).

Vejamos então este trecho do conto 'Elefante Azul', de Menalton: "É fraca, muito fraca mesmo, esta luz amarela que, silenciosa, desce do teto e escorrega pelas paredes nuas, ricocheteando sem alvoroço nos ângulos mais salientes de nossos parcos móveis de cozinha" (p. 42).

Na época de Machado de Assis, classificar um escritor como "realista", mesmo que ele escrevesse as memórias de um morto (como é o caso de Brás Cubas), até fazia um certo sentido, mesmo que questionável. E por quê? Porque a literatura dita 'realista' era aquela que voltava os olhos para as mazelas deixadas pela recente adoção do modelo burguês de vida. Machado já estava, sem dúvida, muitos anos à frente disso, mas podemos realmente perceber algumas críticas sutis a mitos da época, em suas histórias. Ainda não havíamos passado pelas vanguardas, pela epifania, pelos fluxos de consciência ou mesmo pela fragmentação, todos instantes de deslocamento da história da literatura do século XX. Mas essa classificação, feita a alguém de hoje, demanda uma ressalva.

O que acho genial nos contos que li do Menalton não são as revelações das verdades ocultas de personagens cotidianos. É justamente o contrário: o que existe de belo em histórias como a do Elefante Azul é justamente o fato de que ali não há pretensão de 'fato'. Ou seja, o fato de que o que o escritor faz é, de uma forma bela, proteger o oculto que caracteriza as coisas, e não o contrário. Não há revelação nos contos de Menalton. E esse é o seu maior tesouro, na minha visão. Ali, a beleza não é instrumento, mas forma. Por isso, a luz escorrega silenciosa pelas paredes nuas. Se Menalton fosse um realista (ou seja, um iludido), a luz meramente iluminaria o ambiente. Mas nunca é tão simples assim.

Por isso, minha pequena ressalva com relação à orelha: em Menalton, o que de mais rico aparece não é a verdade antes oculta, mas o oculto como verdade. Essa é a maior riqueza de seus contos e de sua narrativa. Os personagens do cotidiano, me parece, são meros álibis. A narrativa brilhante é aquela que se apresenta como algo provisório e não como algo que revela segredos. Ela mantém os segredos. E por isso Menalton é, para mim, um grande escritor.



Escrito por menalton às 12h44
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   POUSO DO SOSSEGO

Nesse último fim de semana, terminei o romance Pouso do Sossego. Hoje já é 05/12 e não pretendo mais mudar uma vírgula que seja. Por tanto, estou de férias. Antes do carnaval quero ler um pouco, comer, dormir, brincar como o Macunaíma, e, talvez, um conto ou dois. Mais nada. Vou fazer literratura com o corpo, vou pensar com o estômago, vou lavar os pés e dormir em lençol limpo com cheiro de alfazema. E se não façio literatura, muito menos política literária, que é um desastre com mortos e feridos. E no fim de tudo, para que fique bem claro, um dia também vou morrer. Mas o fim é natural e não me assombra.



Escrito por menalton às 08h21
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