Blog do Menalton

Meus textos



 
 

Continho

Ricardo não ri

 

 

O tio do Ricardo é rico, não ele, filho de uma viúva de funcionário público. Só não morriam de fome porque se contentavam em comer arroz com feijão todos os dias. Apesar da extrema pobreza, o Ricardo ria muito e era quase feliz. Quase, pois lhe faltava o amor.

Na idade de trabalhar, o Ricardo foi trabalhar. E ele, acostumado com as durezas da vida, conseguia rir no serviço. Por isso todos gostavam do Ricardo.

Um dia, contudo, o Ricardo encontrou seu amor e casou. Ele não entendia bem essas questões familiares, mas a mãe, criada em família tradicional, exigiu que seu irmão fosse convidado. O tio rico do Ricardo foi ao casamento, mas antes, dois dias, um caminhão estacionou em frente ao futuro lar e dez homens ou mais ajudaram a descarregar a imensa geladeira que o tio lhe mandava de presente.

O amor de Ricardo, transformada agora em esposa, no dia seguinte ao do casamento abriu a geladeira e começou a planejar o aproveitamento dos espaços.

Hoje o Ricardo não ri mais, pois tem de trabalhar o dobro para não dar aquela impressão de pobreza, que são os espaços vazios de uma geladeira.



Escrito por Menalton às 06h40
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Palhinha

O fragmento abaixo é do segundo capítulo de meu romance "Moça com chepéu de palha" a ser lançado em setembro próximo.

Apalpo o escuro em todas as direções com olhos teimosos e abertos e alterno meus quatro lados como base do corpo deitado para suportar o peso desta idéia recente: um livro. Meu livro. O sono de Angélica não me contagia e faz horas que ela ressona aqui estendida, sua respiração regular e tranqüila, sem nem desconfiar de que desencadeou um processo sem controle. Nem a doce morte vislumbrada no sexo – a vertigem – conseguiu esvaziar-me o pensamento para receber o sono. Acendo a luz e consulto o relógio: passa das três horas. Levantar para ficar sentado na varanda é uma sugestão do momento e da circunstância, mas sei que então vou ter um dia perdido na cama. Apago a luz e viro-me para o outro lado.

Nas primeiras vezes em que sentimos o corpo latejar, procurávamos com pressa o motel mais próximo, qualquer um, e parecia-me que ambos aprendíamos a morrer um pouco naquela vertigem que se misturava a uma sensação ácida de clandestinidade. Nem a intensidade do sexo, nesses encontros, quando nos devorávamos inteiramente, era suficiente para expurgar de minha consciência a pressa incômoda, aquele sentido de brevidade no amor, que não nos permitia um prazer pleno, um orgasmo que saciasse por inteiro a sede que nos queimava desde os intestinos. Angélica e eu não comentávamos nada quando saíamos do motel convencidos de que tínhamos deixado lá alguma coisa importante por fazer. Saíamos em silêncio, tão-somente. Em silêncio pesado que arrastávamos atrás de nós. E era o silêncio dela que eu interpretava como a ponta de uma frustração.

 



Escrito por Menalton às 15h46
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Aquarelas

Iluminura 9

O ônibus chegou no meio da noite com as janelas acesas, e, num instante, naquela rua quieta de tão noturna, ficou sendo dia. Mas era um dia movediço, de pouco valor, quase uma ilusão. Em seguida ele pôs-se em movimento, levando embora sua claridade.

 



Escrito por Menalton às 09h04
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Crônicas

Olhaí, o Adauto

 

Conheci o Adauto nem me lembro quando, mas sei que faz alguns anos. Ele foi meu aluno no terceiro ano do colegial. Ainda não tínhamos resolvido os problemas da educação mudando os nomes. Era, naquele tempo, primário, ginásio e colégio. Hoje já nem sei mais como chamam isso tudo. Quer dizer, até que sei, mas os nomes de agora são tão água morna com sal que prefiro esquecer.

Então conheci o Adauto numa sala de aula. Ele não era muito diferente dos seus colegas a não ser pelo fato de que usava piercing na asa da narina esquerda, tinha uma tatuagem colorida naquele músculo que desce do ombro para braço, meu deus, no ginásio eu sabia o nome de todos esses músculos! E os ossos, não me escapava um só, com o nome e a posição. Pois é, mas era assim o Adauto. Um jovem handsome. O inglês tem dessas coisas: mulher pode ser pretty, mas homem não. Nós por aqui costumávamos usar, quando se tratava de alguém do sexo masculino, uma locução perifrástica: um jovem bem apessoado.

O Adauto era alegre e extrovertido, namorador, muito bem humorado. Comecei a notar o Adauto porque toda aula ele pedia para contar a última. E ríamos de suas piadas, que geralmente eram engraçadas. Em seguida, depois de tê-lo notado por causa das graças que ele fazia, descobri que o Adauto era um quadrúpede. Simpático, mas quadrúpede. Pra somar dois mais dois, contava nos dedos. Ah, sim, e quando começaram as provas, que ele tinha de assinar, percebi que às vezes ele escrevia Adauto, mas quase sempre grafava o próprio nome como Adalto. Um dia, curioso, quis saber a razão. Sabe, psor (era assim que ele me chamava) certeza, certeza mesmo do nome certo eu não tenho. Então tanto faz.

Aqui no Brasil vivemos tropicaliamente a síndrome do tanto faz. Que deus nos proteja.

Alguns tempos depois, soube que o Adauto, ou Adalto, já que tanto faz, estava envolvido em negócios madeireiros na região amazônica. Me garantiram que tinha enriquecido e se tornara um grande empresário. Não duvido. O mundo é assim mesmo. Não que eu tenha feito opção consciente pela pobreza, mas não quis investir minha vida em acumular fortuna. Há quem o faça.

Pois bem, qual vocês acham que tenha sido o destino do Adauto? Ou tanto faz. Mordido por uma cascavel? Esmagado por uma sucuri? Assassinado com um tiro na testa ou com uma flecha no peito? Suposições erradas, todas elas. Ontem abri o jornal, coisa que não faço com muita frequência, porque os fatos pouco me interessam e as reflexões morrem de pura obviedade, e o que leio lá? O Adauto, ou Adalto, tanto faz, membro de uma Comissão de nossa Câmara Federal. E para dizer toda a verdade, não sou profeta, mas alguma coisa já me dizia, nos tempos em que ele fora meu aluno, que ele acabava assim mesmo. A continuar deste jeito, ainda chega a Presidente.   

 



Escrito por Menalton às 10h51
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Aquarelas

Iluminura 8

Sozinha no descampado, a imensa mangueira resiste ao vento, que açoita, e ao tempo, que passa, com certo ar filosófico. Enquanto isso, a brisa, que apenas acaricia, move-lhe algumas folhas lentas, tão lentas que já nem sabem quanto viveram.



Escrito por Menalton às 07h51
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Contos

Pela porta dos fundos

 

 

O início daquele jogo foi uma frase que me incendiou. O nosso jogo. No fim da peça, passei pela frente de seu camarim, e ela me disse não vivo sem você. Seu riso quente, então, invadiu minhas veias, ocupou cada célula do meu corpo. Não vivo sem você. Sem coragem para entrar, fiquei parado no limiar da porta fruindo até a última gota do olhar com que ela me amarrava ali. Tentei dizer alguma coisa para dar a entender que tinha ouvido sua frase e que seu riso já ocupava muitas de minhas noites, mas não consegui mover os lábios, como não conseguia mover os pés.

Só bem mais tarde descobri ter entrado em um jogo julgando tratar-se da vida.

Meses depois, quando Diana disse hoje você me salvou mais uma vez, percebi que fora para mim, e só para mim, que a tinha salvado. Esbarrava em minha consciência um sentimento de posse até então desconhecido. Diana era uma pertença a meu alcance. Sem minha voz, que só ela ouvia, a peça teria desandado. Foi a primeira vez que fingi estar jogando, mas o fingimento era apenas dos lábios, porque eu fingia que estava fingindo. Enquanto eu estiver por perto, foi minha resposta, você está salva. Nós dois misturamos nossos risos, e pensei que misturávamos nossas vidas. Até então, eu era uma estátua para seus ditos graciosos. E com que encanto, então, Diana os proferia, sabendo que me embaraçava − um vegetal em combustão.

Diana me amava, eu aparecia em seus sonhos, ela não podia viver sem mim. Quantas vezes ouvi tudo isso, meu sangue a ebulir, caudal de que mal dava conta o coração. Os outros integrantes da companhia sorriam para mim ao se referirem àquele caso entre nós dois. E eu, com a voz clara de um riacho entre pedras, e a dicção pura que jamais perdeu um só fonema, me encolhia sem nada dizer a meu favor. Sorvia tão-somente com extremo gosto aquelas alusões cheias de malícia e que a meu ver justificavam minhas esperanças.   

Houve meses em que era sacrifício imenso ficar na gaiola do ponto até tarde da noite. Mas era um sacrifício a que me dedicava sem relutância, pois era dele que emanava minha certeza de estar vivo. Minhas vistas se desgastaram na obscuridade em que era forçado a participar do espetáculo. Caí em desespero à simples idéia de me separar do palco. Um par de óculos foi que me restituiu a confiança em mim mesmo.

Restabelecida a rotina, meu único sofrimento acontecia nos dias de folga da companhia. Ficava em casa perdido, sem saber como passar o tempo vazio da espera, sem interesse por nada que não fosse a contagem de cada minuto que me separava de Diana. Da sala para a cozinha, da cozinha para a varanda, me movia num mundo descolorido, nem frio nem quente, um mundo de tempo feito de uma pasta viscosa e grossa, caldo lento e pesado.

Cheguei a desconfiar, por algum tempo, da sinceridade daqueles sorrisos. Como imaginar que todos, atores e atrizes, tivessem entrado em um jogo, ainda que como meros coadjuvantes? Para mim era mais conveniente acreditar na pureza da alegria com que me cumprimentavam piscando olhos maliciosos.

Na semana passada nos cruzamos nos bastidores depois de uma noite infeliz de Diana. Ela não conseguia se concentrar e pelo menos umas cinco vezes se pendurou em meus lábios, de olhos e ouvidos abertos. Desconheço suas razões, como não sei quase nada de sua vida. O que vivíamos debaixo dos spots já me satisfazia. Naquela noite estávamos todos cansados por causa da tensão provocada por um desempenho apenas medíocre. Diana, suada e de olheiras roxas, me disse assim na minha cara você é o homem da minha vida. Disse e continuou andando na direção do camarim. Voltei e segui atrás dela. Ninguém diz impunemente uma coisa dessas, foi o que pensei.

Ela mal tinha entrado, a porta ainda aberta, e mergulhei no gesto mais ousado de minha vida. Sim, mergulhei, pois foi como se meu corpo todo, meus sentidos, estivessem naquele momento penetrando em um elemento denso e perigoso, do qual nem sempre se pode sair com vida. Eu não conseguia respirar direito e achei que fosse morrer sufocado. Entrei também e tranquei a porta. Seu olhar de espanto me abalou, mas não me fez desistir. Peguei-a pelos dois braços e, mais perto de seu rosto do que jamais conseguira chegar, disse com a voz distorcida pela emoção, apesar da articulação perfeita de todas as sílabas, como eu sempre soube fazer, que queria casar com ela.

O que se seguiu, oh suor que não larga mais minhas mãos, oh nuvem que escureceu meu céu e minha vida, o que se seguiu não consigo lembrar claramente, As palavras e os gestos, a expressão de seu rosto, tudo me fez perder a noção de onde estava e o que fazia. Na luz mais forte do camarim, nos espelhos que nos rodeavam, nas flores murchas que tresandavam a cemitério, em tudo só consegui mergulhar como arrastado por um vórtice a que não se pode resistir. Eu me afogava. Você não se enxerga?, foi o último grito que ainda ouvi com alguma clareza. Seus olhos aterrorizados me enlamearam de ódio de alto a baixo.

Não sei como nem quando cheguei em casa. Ruas noturnas e silenciosas testemunharam meus passos incertos, recolheram muitas de minhas lágrimas. Eu queria morrer, mas não sabia como se faz isso. Também não sei se era mesmo morrer que eu queria. Às vezes, ao dobrar uma esquina, mudando a paisagem, me ocorriam idéias sinistras e me parecia que matar seria muito melhor do que morrer. Cheguei sujo e cansado, e do jeito que cheguei me atirei na cama. E dormi como quem acaba de morrer: um sono escuro e vazio.

Também não sei a que horas acordei no dia seguinte. O céu estava encoberto, as árvores da minha rua tinham adquirido esta cor de palha seca das coisas que morrem. Nenhum som dos muitos que sempre amei da cidade me ligavam ao mundo. A dor que andei derramando pelas ruas à noite transformou-se num clarão do ódio inventado pela desilusão.

Tomei um copo de água gelada e sentei numa cadeira perto da mesa da cozinha. Olhava minhas mãos imóveis sobre a tampa da mesa e não entendia que elas fizessem parte de mim. Que utilidade teria comer, seguir a velha rotina de anos, indo à padaria logo depois de levantar, botar água a ferver para passar um café, ler os jornais, repassar os textos da noite?

O sol bateu na janela e atravessou a cortina. Foi um raio dele que me atingiu os olhos e o cérebro. Tomei outro copo de água e corri à sala, onde me aguardava uma cópia da Casa das bonecas, cuja estréia se daria no próximo fim de semana. Como geralmente faço, tinha acompanhado os últimos ensaios para observar os principais obstáculos encontrados pela memória dos artistas. Minha cópia estava rabiscada, com anotações que me ajudassem nos momentos de maior necessidade. Sem medo de mentir, eu já sabia a peça quase toda de cor. Mas resolvi estudá-la em cada fala e foi o que fiz até a chegada da noite.

Nos dias seguintes, tive um só pensamento: restaurar meu amor próprio abalado.

Ontem foi a estréia. E lá estava eu, naquela posição incômoda, o texto à minha frente, com todas as anotações que tinha feito durante os ensaios e mais algumas que durante a semana eu fora acrescentando.

Ali, a bem poucos passos de distância, quando abre o pano, Diana/Nora exercita sua generosidade e diz ao entregador que não precisa devolver o troco. Meu único temor é de ter os olhos inundados e não poder exercer minha função ou falhar nos meus planos. Quantas e quantas vezes, fascinado pela imagem da minha deusa, eu passaria semanas sem comer, sem dormir, dentro da minha concha, contemplando o semblante do ser amado. Pela primeira vez me soa extremamente falsa a bondade de Nora e estou para eleger Helmer como a personagem empática.

O primeiro ato transcorre sem novidades. Nora troca a deixa no final de uma de suas falas e diz: Então os médicos declararam que ele precisava ir aos banhos. Quando deveria ter dito ir para o sul. É isso, tenho certeza, que desorienta a Senhora Linde, que me olha desesperada. É verdade: vocês passaram um ano inteiro na Itália. E Nora se reencontra com as falas e vai em frente.

Logo nos primeiros minutos do segundo ato, começo a suar, porque meu momento se aproxima.

É uma das falas mais fáceis, mas sei que Diana, principalmente porque está desconcentrada, como desde o início venho observando, não vai conseguir lembrar.

Com sua conhecida arrogância, Helmer se dirige à esposa.

HELMER – (afagando-lhe o queixo) Gentil por obedecer ao seu marido? Vamos, minha tontinha, bem sei que não foi isso que você quis dizer. Mas não vou importuná-la. Sei que você está querendo experimentar a roupa.

Neste ponto ela se aproxima, pois também sabe que nunca lembra a fala seguinte. Alguma coisa em sua memória se rebela contra a continuação, e ela depende de mim. Me mantenho um instante mudo, olhando para o texto, adivinhando apenas o desespero de Diana. Então ergo a cabeça, tudo isso em fração de segundo, um tempo que a platéia não chega a perceber. Ela agora está inteiramente em minhas mãos. E sabe disso. Eu não sou o homem de sua vida? Os tapinhas que recebia nas costas, o sorriso escarninho com que me cumprimentavam, tudo isso não era porque ela não vivia sem mim e tudo o mais que durante muito tempo ouvi, sim, com estes ouvidos sensíveis a todos os sons da voz humana, ouvi embalado por um caudal de esperança? 

Diana faz um gesto de nervosismo, gira sobre seu próprio corpo e passa a mão direita no rosto, como se assim vá lembrar-se do texto. Ah, mas aí mesmo é que não se lembra. Depois de levantar a cabeça, eu posso ver nitidamente os bagos de suor logo acima de seus lábios. Mário, que faz Helmer, também se angustia, tentando inventar alguma saída, quando concluo ter chegado minha hora. Mas reluto. É tal o pânico que percebo no olhar de Diana que me comovo. Seu rosto está desfigurado, com feições que se desmancham. Tento desistir de meu plano, o que não é mais possível. Há dentro de mim um demônio que me guia contra minha vontade. Nora, neste momento, deve dizer apenas: E você, vai trabalhar? Apenas isso para que Helmer responda: Vou. E depois de mostrar uns papéis a Norma, continua seu discurso. 

Então minha voz, que a mim mesmo assombra pela clareza inusitada, sai nítida como lâmina de adaga para introduzir uma fala do terceiro ato, já perto do final.

NORA – Durante esses três dias eu vivi um conflito terrível.

Não é a deixa esperada e Mário me olha perplexo. O que está acontecendo, justo numa estréia para um público convidado, atores de outros grupos, críticos e resenhistas de toda a cidade, professores e estudantes de artes cênicas? Tudo isso deve estar passando por sua cabeça, quando decido ajudar e insisto na fala com que Helmer deve assumir o erro: E chegou a se desesperar;... Ele parece não me ouvir, os olhos relampejando, e insisto na deixa de Nora, repetindo cada vez mais alto, para ocupar seu cérebro. Sem escolha, finalmente ele repete.

HELMER – E chegou a se desesperar;...

Mário pega minha ajuda e continua, como se tudo estivesse transcorrendo normalmente.

Dali até a interrupção, não vi mais o que aconteceu.

Abandonei o ponto e saí rapidamente por um corredor pouco usado, porque ia dar na porta dos fundos, que se abria apenas para carga e descarga. Eu trazia a chave no bolso.

Do corredor ainda ouvi o diretor gritando para que se fechasse o pano de boca, sua voz abafada por vaias ruidosas.  



Escrito por Menalton às 20h41
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Crônicas

Cara de anjo
21/04/2009
Por
em

Só não falei com as plantas. De tudo que me sugeriram, só isso faltou. E não falei, por uma espécie de constrangimento moral. Me senti na situação de quem pega o telefone ao contrário e tenta falar pela concha receptora. Isso nem o Ricardo, meu vizinho aqui do lado, e que ultimamente vem tendo sérios problemas com o satanismo de alguns objetos caseiros amotinados contra o dono, isso nem ele faz. Poderia até tentar, apesar de minha arraigada descrença em comunicação intergenérica, mas imaginei alguém passando naquele exato momento e o que poderia sair por aí dizendo a meu respeito na vizinhança, onde já não desfruto de grande prestígio.

De tudo tentei, mas infrutiferamente. As plantas de meu jardim estavam mesmo era com saudade. Ah, sim, ainda não disse que a causa de tudo isso foi o Moisés. Não um Moisés de barbas brancas e olhar que dispara dúzias de raios aterradores. O Moisés, mesmo, com artigo e tudo, porque um sujeito simples, familiar, que visitava meu jardim todos os meses e que de repente alegou problemas em uma cidade distante para não voltar mais. Com o maior orgulho pelo estado do jardim de nossa casa, dispensei os serviços do Moisés. Deixe comigo, foi o que eu disse. Deixe comigo. Estou mesmo precisando de um pouco mais de atividades físicas.

Nos primeiros dias, tive a impressão de que as plantas ficaram até mais bonitas. Ah, os olhos, como são enganosos! Geralmente vemos o que estamos querendo ver. Ou precisando ver. Pois tive a impressão. Principalmente porque a glicínia, de um vaso de barro, soltou uma flor de um veludo roxo-vivo que encantou a família toda. Pois não é que leva jeito!, ouvi dizerem-me pelas costas enquanto fingia não ouvir nada.

A grama, as tuias (a azul, a compacta, a dourada), a touceira de areca, o legustro, a camélia, a palmeira fênix, com seus espinhos, pingos-de-ouro, sálvias, todas elas, as incontáveis plantas de meu jardim, algumas semanas depois da despedida do Moisés, começaram a demonstrar descontentamento. Reguei, adubei, podei. Só não conversei por razões já expostas. Fiz de tudo. Elas recusavam qualquer coisa que eu fizesse. Começaram a definhar. As begônias, nos vasos, melaram todas. Até melhoral na água eu andei botando, por recomendação da mãe de uma amiga, maga das plantas, no dizer desta. Nada. Foram meses de lutas e canseiras sem vislumbre de vitória. Visitei floriculturas, consultei especialistas. Resposta nenhuma dessas ingratas.

Há um mês, pouco mais, recebi um telefonema noturno. Era o Moisés. Não se dera bem na cidade distante e me perguntava se poderia ser aceito em seu antigo posto.

No dia seguinte bem cedo, acordei com o Moisés cantando ao ritmo de seu tesourão. Quando saí para cumprimentá-lo, ele sorriu e me disse qualquer coisa que, de longe, não entendi direito, mas que adivinhei. Já perto, disse a ele que cuidei, sim, dentro de minhas possibilidades. Ele não desmanchou o sorriso incrédulo.  

Hoje fui ler sentado à sombra do chorão mexicano (das poucas árvores que se mantiveram fiéis a mim) e, olhando em volta, me lembrei do Tistu, aquele menino do dedo verde. De anjo é que o Moisés não tem nada, acho eu, mas as plantas do meu jardim são capazes de jurar que ele é um anjo disfarçado de jardineiro.
 

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Escrito por Menalton às 16h03
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Crônicas

Caçadores noturnos

 

 

 

Não sou especialista em sociologia ou psicologia, tampouco em antropologia, mesmo assim ouso afirmar que o prazer que sentimos na captura de um peixe é um prazer atávico. Provavelmente tenhamos herdado tal prazer de nossos ancestrais, que, ao capturarem um peixe, garantiam a subsistência por mais um dia. Quanto prazer! Arrisco mesmo supor que grande parte de nossos prazeres, talvez todos, esteja ligada à sobrevivência. O prazer da reprodução humana, por exemplo, não tem nenhum que o supere.

Tenho muitos amigos pescadores e algumas vezes já fui pescar com eles. Quinze minutos do centro, em pesque-pague com todo conforto: cadeiras de plástico, quiosques de bebidas e guarda-sóis. Chega-se à beira d’água, joga-se o anzol com isca na lagoa e espera-se. Um peixe vai passar pelo anzol, vai pensar que encontrou comida e comido acaba sendo ele. Tudo muito limpo, tudo muito certo. Alguns escolhem o tanque da tilápia, outros preferem o pacu, talvez o piau. Eis a que foram reduzidas as aventuras de nossos avós.

Onde o prazer de romper o mato à beira do rio, observar o movimento da água, sua cor, descobrir o lugar em que se abrigam os capturandos, imaginar o que vai acontecer? Onde a sensação de vitória ao fisgar alguma coisa que não se sabe o que seja, impor-lhe nossas habilidades correndo todos os riscos, mesmo o de cair na água? Não existe mais o prazer da aventura, o gosto de encontrar o inusitado para comprovar nossa rapidez de raciocínio, o acerto de nossas decisões.

Tenho um primo que, quando criança, via-nos sair para a caça. Era um tempo em que caçar passarinhos não causava remorso, um tempo em que ninguém falava em politicamente correto ou incorreto. Isso ainda não fora inventado. Menino de calça curta, a gente não costumava levar por causa dos perigos. Como esse meu primo não era levado junto, mas já se manifestava nele a vocação de caçador, exercitava sua pontaria dentro do viveiro de seu pai.

Conheço pencas de caçadores de viveiro por aí, que tiram a noite para sonhar suas aventuras. Um deles me contou que, em viagem pela Europa, jantou com a Sofia Loren e depois... bem, não sejamos indiscretos.

 



Escrito por Menalton às 07h59
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Aquarelas

Iluminura 7

 

É um livro velho com cheiro de papel amarelo. Separando duas páginas de conteúdo antigo, uma flor seca e descolorida. É provável que, em seu tempo, tenha sido um amor perfeito.

 



Escrito por Menalton às 08h20
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A leitura na passarela

 

Nestes últimos tempos, felizmente, tem-se falado muito em leitura. Discussões pela imprensa, simpósios, conferências, pesquisas, livros, enfim, a leitura vem tornando-se uma das preocupações centrais de boa parcela da população, ou, pelo menos, daqueles que, por alguma razão, estejam comprometidos com a construção do futuro.

Quando se fala de leitura, entretanto, tem-se que pensar que se está falando do ser humano. O ato de ler tem que ser avaliado em suas dimensões reais, pois não se trata de algo banal como jogar dominó, assistir a uma partida de futebol. A insistência com que se tem falado do incremento da leitura, isto é, da melhoria dos índices de consumo de livros no país, leva a um pressuposto que nos parece indiscutível: existem diferenças entre sociedades de leitores e sociedades de não-leitores. E isso deixando estes últimos em desvantagem.

Parece desnecessário discutir quais as vantagens da leitura nem cabe num artiguete despretencioso e desta extensão como este desenvolver o assunto. Peço, portanto, permissão para dar como verdade que o leitor (ledor) está mais bem informado que o não-leitor, estando, portanto, mais bem preparado para fazer suas escolhas na vida. Isso, por si, já seria razão boa para que se desejasse incrementar os índices acima.

Mas o que falar da literatura, então, que não tem como principal escopo a informação? E aí está outro assunto cheio de controvérsias, que nos obrigará a alguma simplificação. A literatura é arte e arte, pelo menos numa concepção kantiana, é inútil. Tão inútil como gerar filhos, como ouvir música, como amar e ser amado. Inútil, a arte, mas é ela que nos torna diferentes dos outros animais, ou seja, é a arte que nos humaniza.

Ora, aceitando-se as afirmações acima, cabe, então, uma pergunta: lê-se pouco, e isso as estatísticas comprovam, mas tão importante quanto: o que se tem lido?

Não acredito que qualidade e quantidade sejam excludentes. Por isso, sou de opinião que todos aqueles que estão hoje empenhados em aumentar o número dos leitores e o número de livros per capita comecem também a investir na qualidade do que se lê. Os dois trabalhos podem ser concomitantes. 

 

 



Escrito por Menalton às 22h45
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Engraçado

 

 

 

Corri ao dicionário, um desses miseráveis seres que serão jogados à sarjeta de nossa língua, para certificar-me de que não me havia enganado. E não, lá estava o verbete, escrito com cê cedilhado, informando suas diversas acepções (assim mesmo?).

Pois bem, estamos, desde o dia primeiro deste nono ano de um novo século, escrevendo de maneira diferente do que por cá escrevíamos para que escrevamos de maneira igual ao que por lá se vai escrever. Vocês já imaginaram um livro escrito naquela ortografia bárbara brasileira chegando à Guiné dos irmãos Cabral, país onde se era alfabetizado com outras letras, o estrago cultural que podíamos causar? Já imaginaram? E o inverso também é verdadeiro. Nossas vestais linguísticas (perceberam a importância da mudança?) arrancavam os próprios cabelos, rasgavam suas vestes de vestais, cobriam suas vastas cabeças (ou cabessas? já nem sei mais) com a mais cinza das cinzas, quando por aqui chegavam livros do Saramago, do Agualusa, do Lobo Antunes e de tantos outros escritores d´além mar  (Com hífen ou sem? Não sei, mas estou desconfiado de que o apóstrofo é um pouco arcaico). E sabem por quê? Ora, porque não se conseguia entender patavina do que eles nos tentavam dizer com sua estranha escrita.

E o verbete procurado foi o substantivo abstrato que agora impera entre nós, os usuários da língua de Camões: congraçamento. Claro, com todos nós escrevendo do mesmo jeito, não há como não congraçar. Aliás, bisbilhoteiro desses escaninhos da língua, fiquei bisbilhotando este dicionário que tem seus dias contados (assim que arrumar dinheiro, prometo que vou comprar um dos milhões de dicionários que deverão ser editados  para a alegria das editoras). E sabem o que descobri? O lexema acima está radicado em graça, de que derivam engraçado e desgraçado, ou seja, o que tem graça e aquilo que não a tem.

E antes que você sinta-se tentado a rir, devo advertir que graça (assim mesmo, com cê cedilha, em todo o mundo lusófono) é uma palavra (lexema é um pouco pedante) polissêmica, isto é, não é apenas dito ou ato espirituoso, divertido. Mercê, benefício, dádiva, benevolência, estima, boa vontade, tudo isso pode não ser engraçado, mas que tem graça lá isso tem.

Bem, e agora que já estamos todos congraçados, podemos esperar que o mundo reconheça finalmente a necessidade de paz, podemos certamente ler o que se escreve em Angola, assim como os moçambicanos poderão ler os escritores brasileiros. A felicidade é isso, minha gente, é poder congraçar.     



Escrito por Menalton às 21h58
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Aquarelas

 

Iluminura 6

 

O sol do meio-dia ilumina com intensidade a copa das árvores e esquenta sem dó o alto das cabeças. À sombra de uma sibipiruna, o cão malhado de preto e branco ofega uma língua dependurada e não se lamenta por não ter aonde ir.



Escrito por Menalton às 07h20
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Cenas

 

Um leito macio

 

Arnaldo ofegava ao depositar as compras da padaria na calçada. Já sinto o peso do corpo, ele pensou enquanto batia as mãos nos bolsos da calça e do paletó para descobrir o molho de chaves. Depois de abrir a pesada porta de ferro com vidros em caixilhos, juntou da calçada as compras e olhou os trinta e dois degraus de escada até o primeiro andar. Teria outro tanto até chegar a seu apartamento.

    Subia contando os degraus e de vez em quando se atrapalhava na contagem por causa da respiração. O suor empastara o cabelo, inundava os olhos - visão precária. Tentou por algum tempo atingir cada degrau primeiro com a perna direita. Mas cansou. A esquerda era mais fraca, mas teve de sacrificá-la. Parou. Ficou com medo de que as compras caíssem na escada: não as sentia mais nas mãos.

    Esboçou um pedido de ajuda. O pedido não se completou.

    Um bando de aves passou levando-o para as nuvens, onde o depositaram num leito macio.

                                                   *



Escrito por Menalton às 09h21
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Gingle bells

 

Questão de quantidade

                                  

 E cá estamos nós, novamente, preparando-nos para o balanço e a retrospectiva. Além de um exercício de memória, a ocasião deveria ser também oportunidade para exame de consciência. Se nos examinássemos mais, se conversássemos mais com nosso travesseiro, é provável que conseguiríamos melhorar um bocadinho, e, em matéria de melhora, qualquer uma é boa, não é verdade? Pelo menos estaríamos desmentindo esses apocalípticos todos que não param de proclamar o fim do mundo, coitado, em senda descendente e irreversível. Mas não. Nossos balanços são sempre questões de quantidade. Observem o que dentro de um mês, mais ou menos, vai começar a aparecer na mídia, e veja se não tenho razão.

Em 2005 a indústria automobilística produziu tantos automóveis a mais ou a menos do que o ano anterior, mantendo ou alterando a média dos últimos dez anos. Alguém comenta a qualidade dos automóveis? A verdade é que medir qualidade é uma coisa muito difícil, é matéria de filosofia. E é com o auxílio da ciência matemática que geralmente medimos as questões de qualidade, que são filosóficas.

Outro balanço vai dizer que a qualidade de vida das cidades, o IDH, subiu ou desceu tantos pontos, a tanto por cento, podendo-se agora comparar àquela cidade que nos causava inveja, porque a ultrapassamos em 1% de certo índice. Tudo isso é aferido por números. Ah, sim, é uma questão difícil de resolver, questão em que muitas correntes filosóficas se têm empenhado e digladiado, desde Pitágoras. Mas quando se fala de esgoto e seus metros lineares, da saúde e a quantidade de leitos, da educação e das horas de banco escolar, eu sempre fico um tanto frustrado, pois queria mesmo era saber se a população de tal ou tal cidade hoje ri mais do que ria antes, se é mais feliz do que foram seus antepassados; se os alunos, cuja bunda tem lustrado os bancos escolares, vêm saindo mais sábios da escola, suas decisões na vida vêm sendo mais ponderadas, aprenderam a respeitar o próximo, aprenderam lições de amor.

No mundo em que vivemos tudo se quantifica e só contam os números e tamanhos. E quando se pensa em melhor, não é na bondade em si que se está pensando, mas em superioridade, ou seja, em quantidade de bondade.
Não há como um fim de ano para que se descubra tudo isso aí.
Ah, sim, e agora começam as retrospectivas e previsões.

No capítulo das retrospectivas, me parece que a palavra furacão vai ser recorrente. O ano todo viveu muitos furacões, nenhum, entretanto, que se compare ao furacão Wall Street, que promete arruinar a vida humana de todo o globo terrestre. O furacão Obama promete pôr fim à farra dos bancos e das montadoras de automóveis injetando mais bilhões nas mãos deles para que suas brincadeiras não lhes tragam maiores prejuízos. Nunca vi uma coisa destas: o capitalismo não deu certo? Porque chegar de chapéu na mão nas portas dos palácios governamentais, isso não me parece capitalismo.

O Hugo Chaves no se calla, a Europa continua vieja, o Brasil já recebe calotes, e o mundo não pára de girar: em torno de seu próprio eixo e em torno do Sol. Então chegou a hora das previsões, mas isso é coisa de profetas, e já não profetizo mais nem o passado. E como diria aquele delirante Pangloss, vivemos no melhor dos mundos.   

 

 

 

 



Escrito por Menalton às 09h20
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Vasto mundo

Do otimismo

 

 

Que desde já me perdoem todos os otimistas de todos os matizes, mas não entro mais nesta, de esperar as mudanças, de contar com as transformações que farão do planeta Terra um lugar menos irrespirável. Já vi esse filme, e até mais de uma vez. Novamente otimista, me consideraria apenas tolo.

Se você percebeu que estou falando da eleição de Barak Obama para o governo dos Estados Unidos, você é uma pessoa plugada, com sensibilidade bastante para se deixar penetrar pelo mundo e suas realidades. Acho que você vai entender meu ponto de vista.

Para que não haja desvios de interpretação, declaro desde já: não sou profeta, não quero ser profeta, não acredito em profecias. E nisso me saio melhor do que o padre Antônio Vieira, da Clavis Prophetarum, que se proclamava profeta. Não, se alguma coisa aprendi, e juro que aprendi muito pouco, foi na base da porrada, puro conhecimento empírico.

A eleição de Barak Obama deve ser festejada, sim, mas apenas como ato simbólico de uma falência: o racismo. Não que ele tenha sumido, mas foi vencido, está em baixa. E só. E não estou querendo dizer que nada vá mudar.

A política interna dos Estados Unidos muda a partir de janeiro. Haverá, de agora até o fim do mandato do presidente eleito, uma maior preocupação com a distribuição da renda, sobretudo no que diz respeito aos salários indiretos, como educação, saúde, seguridade social. E isso não é uma grande coisa? Claro que é, mas isso é o que mudaria com qualquer presidente do Partido Democrata. É sua diferença do Partido Republicano. Aliás, diferença presente e bem clara em todos os discursos de campanha.

No mais, o vergalho continuará nas mãos do império até que ele deixe de o ser.

É muito fácil confundir governo com poder e imaginar que um presidente, por ter sido eleito, e por contar com o apoio da maioria da população, esteja investido de poder. Ele é pago para administrar, para fazer tudo para que a máquina funcione. Ora, os falcões não fugiram para as florestas. Estão lá, atentos, manobrando os executores de seus interesses. As companhias de petróleo, as grandes corporações econômico-financeiras, todos eles, se bem que meio machucados pelas besteiras que eles mesmos andaram fazendo, continuam com a mesma força que já detinham e não se creia (pois seria ingenuidade) que eles abdicaram do poder. Deram uma folguinha ao governo, mas não soltaram as rédeas do poder.  

Se alguma coisa mudar é porque o mundo mudou, é porque a lógica ditada pelo equilíbrio de forças mundial assim exigiu.

Não que me desagrade o Barak Obama presidente dos Estados Unidos, isso não. Pelo contrário, desde o início vi nele, muito mais do que em seu adversário, o perfil de um estadista. Mas a lógica do império continuará imperando, e isso até que os novos bárbaros invadam a nova Roma. Barak Obama não se parece a Rômulo Augusto, muito menos a Odoacro, que, em épocas remotas da história da humanidade, desmontaram ou participaram do desmonte do maior império que já existiu.



Escrito por Menalton às 08h58
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