Blog do Menalton

Resenhas



 
 

Kafka

Kafka e a Marca do Corvo

 

 

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Kafka e a Marca do Corvo, de Jeanette Rozasas

Geração Editorial. 184 páginas, R$ 26,00

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                        Menalton Braff

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 Não sou leitor de biografias, um gênero que não me faz a cabeça. Saber que vou chegar ao fim da vida sem ter lido 5% do que é fundamental na literatura, me causa angústias tremendas e me obriga a escolher muito o que devo ler.

Acontece que recebi um exemplar de Kafka e a Marca do Corvo e por duas razões decidi que teria de fazer uma exceção. Primeiro, por ser uma biografia romanceada de Franz Kafka, um dos maiores gênios literários do século XX. Mas o que estou dizendo! Um dos maiores gênios literários de toda a história da literatura universal. Tinha várias informações do que foi sua vida, mas agora me chegava a oportunidade de conhecê-la em detalhes. E essa me parecia uma boa razão para ler. Além dessa razão, contudo, o livro foi escrito por Jeanette Rozsas, escritora paulistana de quem conheço o trabalho. E de longa data. Não havia como não ler.

Depois de um trabalho de pesquisa que demandou anos da escritora, além de duas viagens a Praga e da leitura de toda sua obra, Jeanette resolveu juntar seus apontamentos e lhes dar forma narrativa. A Jeanette criou um romance, mas sem se afastar jamais dos fatos verídicos.

Os diálogos, segundo confessa a autora, são todos retirados de escritos de Kafka, sobretudo de sua farta correspondência.

Dividido em sete capítulos, a progressão da narrativa é linear, cabendo a cada capítulo cobrir os fatos mais importantes de determinada época do autor. Há momentos em que o leitor atento vai sentir-se às margens do Moldava ou percorrendo os bosques que cercam a cidade de Praga. Desfilam praças e ruas, as igrejas da cidade em que Franz nasceu e só adulto, durante alguns meses abandonou para morar em Berlin com Dora, sua última companheira.

Os conflitos entre Hermann Kafka, um ex-camponês grosseiro e o débil e sensível Franz, seu filho, são brutais e incessantes. Pode-se dizer que são o centro de toda a história do autor.

Enfim, se o leitor tem alguma ligação com a literatura de Kafka, vai aproveitar muito com a leitura sobre sua vida. Se não tem, acho que vai querer ter.  



Escrito por Menalton às 08h37
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Desobjetos

Desinvenção do objeto

 

 

Fabiana Turci é uma tecelã. Uma tecelã que, ao tecer-se, tece seus inúmeros desobjetos. Seus procedimentos poéticos limitam-se ao norte por Carlos Drummond de Andrade e ao sul por Clarice Lispector, como quando ela diz, já no primeiro poema, “as palavras pulsam em estado nascente”, ou “Tudo o que a pedra fazia era: estava lá.”  Mas a leste e oeste, a Fabiana está, por enquanto, ilimitada. 

Seu projeto poético não é casual. A Fabiana, tendo norte e sul em um poeta e uma prosadora (ambos operários da poesia), atinge o esmorecimento dos limites entre verso e prosa, tendência que, a nosso ver, marcará profundamente a literatura do futuro.

Em seu livro Desobjetos, suas viagens vão além da razão aparente para buscar, com recursos como o oxímoro, o sentido verdadeiro das coisas, que está oculto. Ela desconstrói seus objetos com as palavras da definição para reconstruí-los como partes de si mesma, no que se pode chamar de subjetivização do objetivo. Um bom exemplo disso é o final do poema Árvore, onde ela afirma: “O meu jeito de folha me permite compreender: o quanto a queda é o movimento mais importante para o indizível.”

Parodiando Olavo Bilac, só quem ama a poesia é capaz de ouvir e entender suas definições, pois como ela mesma diz: “...nunca perdi esse jeito torto, de quem vê através de indefinições.”, dando-nos uma pista preciosa para desvendarmos seus caminhos.

Estamos diante de um talento indomável e o melhor que fazemos é pegar carona com ela para acompanhá-la em suas viagens.



Escrito por Menalton às 08h19
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Literatura japonesa

 

O País das Neves

 

 

Yasunari Kawabata, nascido em Osaka em 1899, foi o ganhador do Prêmio Nobel de literatura em 1968. No ano de 2004, a Editora Estação Liberdade lançou uma de suas obras máximas, o romance O País das Neves.

Atravessava-se um longo túnel e lá estava o País das Neves. A noite assumiu um fundo branco. O trem parou num entroncamento.

Com esse parágrafo inicial, Kawabata nos introduz num espaço mítico com características orientais, onde se desenrolarão as ações de seu romance. Dele pode-se dizer que é uma história sem início ou fim, isto é, trata-se de um flagrante da vida em movimento, à maneira impressionista.

Em sua escrita, cujos traços surrealistas são evidentes, devem-se destacar as técnicas impressionistas, não só pela construção da história como flagrante, como por outros recursos, como o efeito borrão, os recuos ao passado, a predominância da sugestão sobre o delineamento. Seus traços são difusos e as cenas também provocam uma sensação de incompletude. Mas, acima de tudo, Kawabata é sensorial, bosquejando, a todo momento, a paisagem da vila, seus jardins, suas plantas, como centro, além das montanhas cobertas de neve que a circundam.

Para um leitor ocidental, entretanto, a leitura de O País das Neves apresenta obstáculos quase intransponíveis, principalmente quando se trata das personagens, seus costume, valores, suas relações interpessoais. Dificilmente se entendem as razões de Komako, uma gueixa, e Shimamura, um escritor em férias nas montanhas.

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Escrito por Menalton às 11h23
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O mundo cor-de-rosa

 

 

A doçura do mundo, da escritora indiana Thrity Umrigar radicada nos Estados Unidos, foi mais um dos lançamentos da Nova Fronteira no ano de 2008. E um lançamento que dificilmente se justifica.

A autora, Umrigar, tem suas virtudes literárias radicadas no plano da expressão. Apesar de jornalista em Ohio, não escreve como jornalista. Suas metáforas, sem serem achados de criatividade, são razoáveis. Pelo menos aquelas que não caem no chavão desgastado. Melhores são as comparações, algumas mesmo surpreendentes, como "O rosto de Eva tornou a se franzir, como um penhasco arenoso banhado por uma onda".

Mas é só. No plano do conteúdo, há falhas que um leitor brasileiro médio já não consegue suportar. E a primeira é a previsibilidade. Desde o início pode-se prever a decisão final da personagem protagonista: Tehmina, uma indiana recém-viúva que, passando uma temporada com o único filho, já transformado em cidadão americano, deve decidir entre voltar à sua Bombaim ou ficar definitivamente ao lado do filho e da legião de amigos conquistados em seu novo lar: Ohio.

A narrativa torna-se tediosa, tal a insistência com que a narradora compara a Índia com os Estado Unidos. Sua visão maniqueísta é que anuncia o final do romance. Escolher entre céu e inferno só é um conflito pessoal quando se usam os óculos da extrema ingenuidade. A senhora Umrigar comete falhas como comparar a classe média norte-americana com miseráveis da Índia. Tanto existem miseráveis nos Estados Unidos como classe média na Índia, mas isso ela esconde. Ou desconhece

Outro senão do livro é a tradução. Existem algumas expressões, e bastante freqüentes, como "Rustom deu um sorriso tristonho" ou "Deu um olhar desenxabido para o amigo" em que a tradução parece ter sido de dicionário. Caso mais grave é "...preparou para a amiga um omelete temperado..."

Enfim, um livro que tem na capa à guisa de mote "O melhor lugar do mundo é um só: perto daqueles que amamos", lugar-comum de nível ginasiano, não pode ser levado muito a sério.

O estranho é que grandes editoras brasileiras continuem insistindo em publicar literatura dessa qualidade em detrimento de autores brasileiros cuja literariedade é bem superior. É uma questão de mercado? Então por que não se investe em promoção de autores nacionais, sobretudo agora, que o dólar foi parar nas nuvens?  



Escrito por Menalton às 11h19
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Não mais que uma crônica

Inauguro minhas leituras de 2009 com um autor até então desconhecido para mim, que, entretanto, foi merecedor de vários prêmios na Inglaterra. Acabei de ler Colina negra, de Bruce Chatwin, escritor inglês morto em 1989. O livro foi editado no Brasil pela Companhia das Letras.

Trata-se de um relato ou crônica de uma região com os acontecimentos locais e mundiais como matéria principal das extensas descrições permeadas por narrativas curtas nem sempre articuladas. O narrador toma uma família em fins do século XIX e vem acompanhando a morte de alguns e o nascimento de outros até a época do governo de Margareth Thatcher.

O romance não tem, aparentemente, outro objetivo senão explorar o que existe de pitoresco no país de Gales. Costumes, tradições, relevo, fauna e flora dessa região das ilhas britânicas. O autor deve ter sido um pesquisador atencioso pois não economiza, em suas descrições, as tintas das cores locais, com vocabulário rico em regionalismos e detalhes que parecem surgir de uma câmera sôfrega por captar tudo o que pareça diferente da Inglaterra.

O envelhecimento, sobretudo dos dois irmãos gêmeos, que em geral podem ser considerados os protagonistas da história, e as mudanças pelas quais a região vai passando com o correr do século, eis o que se lê.

Não há um fim a que chegar, uma solução, não há o avanço de uma narrativa, tudo isso substituído pela minuciosa descrição da passagem do tempo. Uma das falhas do romance, se assim se pode considerar, é a ocorrência muito freqüente de cenas que servem apenas de suporte para a existência da vida local. Não vejo por que nominar, descrever com minúcias, dar a origem de personagens que jamais voltarão a aparecer. Foi um encontro casual em uma estrada e o narrador gasta páginas dando informações de quem some na estrada e no romance.

A exploração do pitoresco não nos parece a melhor matéria da literatura. O romance que se queira cartão postal perde em dramaticidade e em trabalho poético da linguagem. A busca do exótico me parece coisa do passado.  



Escrito por Menalton às 10h43
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Revista literária

P r o j e t o   P o r t a l

 

A revista Portal Solaris — primeiro número do Projeto Portal, coordenado por Nelson de Oliveira — traz contos inquietantes que vão do universo da ficção científica ao do fantástico, passando pelo da fantasia.

São catorze narrativas sobre novas tecnologias, viagens no tempo, ciberespaço, telepatia, contatos imediatos do terceiro grau, pós-apocalipse, pós-humano, utopias e distopias, de dez autores contemporâneos de sete Estados brasileiros.

O Projeto Portal prevê seis números, com periodicidade semestral. Cada número homenageará, no título, uma obra célebre da ficção científica: Solaris, Neuromancer, Stalker, Fundação, 2001 e Fahrenheit.

Os contistas da Portal Solaris são: Ataíde Tartari (SP), Carlos Emílio C. Lima (CE), Carlos Ribeiro (BA), Geraldo Lima (DF), Homero Gomes (PR), Ivan Hegenberg (SP), Luiz Bras (MS), Mayrant Gallo (BA), Roberto de Sousa Causo (SP) e Rogers Silva (MG).

 

 

P o r t a l   S o l a r i s

 

revisão: Mirtes Leal      diagramação: Raquel Ribeiro

capa: Teo Adorno      formato: 16 x 23 cm

impressão: uma cor      tiragem: 200 exemplares

 

oliveira.e.cia@uol.com.br

 



Escrito por Menalton às 15h26
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