Blog do Menalton

Textos de amigos



Perda

 

Alessandra Amantea                                                     

 

De perdas conheço mais

Há na perda, porém,

Um ganho qualquer

que não alegra,

mas fortalece o leão…

Perdendo também se ganha…

Ganhando também se perde…

Duas faces da mesma moeda

 

Parte de mim se subtrai na perda

Até que um dia, não haja nada para faltar

Enquanto isso,

Inundo de tristeza,

Buscando retomar o fôlego

Que também perdi…

 

Afogada nas horas

Da existência vazia

Busco novamente submergir,

Mas dessa vez fui tão profundo

Que não encontro indícios de superfície

 

E se é perda de amor, pior…

 

Um dia ainda morro disso…

O sumiço da bolha de sabão

breve e sem bagagem…

 (O poema acima é da Alessandra, mi maestra de español, rsrsrsrs. Está em seu blog a1e5.wordpress.com)



Escrito por Menalton às 07h51
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Poema do Bruno

Vocês estão lembrados do Bruno? Um poeta adolescente que faz poesia de gente grande. Ei-lo:

PLATÔNICO

o bilhete de amor
tão contido
na caligrafia miúda
perdeu-se num bolso
na lavanderia dos sanchez
- os borrões azulados
do papel alvejado
em pedacinhos, tão poeticamente
foram-se

foi-se também
a lavanderia
tampouco ficaram
os sanchez

tampouco ficou
qualquer resquício da timidez
dos olhares
qualquer um
dos ônibus circulares
e daquele fim alaranjado duma tarde em abril
qualquer pedaço de pano
de horas a fio
noites em claro
- qualquer coisa que lembrasse
a antiga possibilidade
de um caso de amor



Escrito por Menalton às 09h12
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Conheci o Bruno

A gente nunca deixa de ter surpresas. Hoje conheci o blog do Bruno. http://meuparapeito.blogspot.com

De lá que trouxe o poema abaixo:

ver um avião ao longe

é ter o olhar esvoaçado
num repente. envergo o rosto
e descubro: pura e azul,
a distância acima dos ombros.

a plenos pulmões respirá-la
imensa
O Bruno tem 16 anos e já é um poeta maduro.



Escrito por Menalton às 05h53
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Leyendo español

EL DESPERTAR

Alessandra Amantea

           

Todo estaba claro en aquel día. El amanecer surgía con un bonito cielo y los pájaros cantaban una canción alegre, cuando un rayo de sol que atravesaba la ventana despertó a Alicia. La mujer había dormido en el sillón de la sala, después de quedarse casi toda la madrugada intentando finalizar su libro.

 

Alicia era una escritora típica que cambiaba la mañana por la noche, pero en aquel momento empezó a observar esa parte del día que hacia tiempo no apreciaba. La mañana estaba un poco fría, entonces ella se quedó en el sillón mientras oía los ruidos de las personas corajosas que se atrevían a levantarse tan temprano, el vecino barriendo las hojas secas que caían del árbol y los pasos de los estudiantes todavía perezosos. De pronto se acordó del tiempo de estudiante y del camino hasta la escuela que siempre se volvía en una aventura diaria.

 

Durante su niñez, Alicia iba a la escuela a pie. El colegio donde estudiaba estaba cerca de su casa. Sin embargo, en esa fase no podía apreciar mucho el paisaje matutino, pues siempre estaba retrasada. Tan pronto como levantaba tenía que salir corriendo a fin de no perder el horario. La escuela del barrio era muy rígida y cerraba los portones tras la campana de la siete y media. Después de que la tocaran nadie más podía pasar, salvo los alumnos cuyos padres autorizaran por escrito.

 

Algunos años después, en la adolescencia, Alicia cambió de colegio. En esa época la chica tenía que coger autobús todos los días y seguía retrasándose. A pesar de eso admiraba el paisaje a su vuelta. A veces la curiosa estudiante no decía del autobús, pero quedaba en el hasta que diera toda la vuelta. Lo hacía con el objeto de observar los pasajeros y el movimiento de la calle. Imaginaba lo qué cada un hacía, dónde iba, cuáles sus historias personales.

 

De pronto, un olor de café vino de la cocina, trayéndola de vuelta al presente. En ese instante se dio cuenta de que era su novio que preparaba el desayuno. Al sentir aquel olor se acordó de los días fríos, los cuales sus padres hablaban bajo por la mañana, antes de ir a trabajar y de la seguridad que le pasaban aquellos sonidos.

 

Alicia tuvo ganas de levantarse: se vistió, desayunó con su novio y salió de casa en búsqueda de aventura, como hacía en el pasado. Mientras caminaba, percibía que ya no estaba más retrasada para ningún compromiso, a no ser lo de vivir. Ella caminaba por la calle, mirando todos sus detalles. No conseguía percibir desde cuándo había dejado aquel mundo “fantástico”. Miraba los niños que iban a la escuela, los obreros, los coches cada vez más numerosos. Percibió que la mañana podía traer esperanza. Tras una larga caminada, la escritora volvió a su casa. Nada más llegar fue al ordenador para terminar su libro. Las vueltas por la calle la inspiraron. Ella concluyó que por muy distinto que el mundo estuviera, el amanecer seguía tan encantador, poético y las personas seguían haciendo las mismas cosas del tiempo de su niñez: buscaban una oportunidad, nuevas aventuras, la felicidad.

 

A partir de aquel día, Alicia pasó a levantarse temprano y a salir a caminar por la calle como una niña curiosa. Pues, sentía que la felicidad estaba muy cerca de los besos y abrazos del sol.

 



Escrito por Menalton às 13h28
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O homem e seu tempo

O Caderno de Saramago 7/jul/09

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Do sujeito sobre si mesmo

By José Saramago

Como escritor, creio não me ter separado jamais da minha consciência de cidadão. Considero que aonde vai um, deverá ir o outro. Não recordo ter escrito uma só palavra que estivesse em contradição com as convicções políticas que defendo, mas isso não significa que tenha posto alguma vez a literatura ao serviço directo da ideologia que é a minha. Quer dizer, isso sim, que ao escrever procuro, em cada palavra, exprimir a totalidade do homem que sou.

Repito: não separo a condição de escritor da do cidadão, mas não confundo a condição de escritor com a do militante político. É certo que as pessoas me conhecem mais como escritor, mas também há aquelas que, com independência da maior ou menor relevância que reconheçam nas obras que escrevo, pensem que o que digo como cidadão comum lhes interessa e lhes importa. Ainda que seja o escritor, e só ele, quem leva aos ombros a responsabilidade de ser essa voz.

O escritor, se é pessoa do seu tempo, se não ficou ancorado no passado, há-de conhecer os problemas do tempo que lhe calhou viver. E que problemas são esses hoje? Que não estamos num mundo aceitável, bem pelo contrário, vivemos num mundo que está a ir de mal a pior e que humanamente não serve. Atenção, porém: que não se confunda o que reclamo com qualquer tipo de expressão moralizante, com uma literatura que viesse dizer às pessoas como deveriam comportar-se. Estou a falar doutra coisa, da necessidade de conteúdos éticos sem nenhum traço de demagogia. E, condição fundamental, que não se separasse nunca da exigência de um ponto de vista crítico.

 



Escrito por Menalton às 12h51
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Assim caminha a humanidade

19/06/2009 - 08h43

A crise sem retorno

 

 

 

Acaba de ser lançado A crise estrutural do capital de István Mészáros, um dos principais intelectuais marxistas contemporâneos, nascido na Hungria e discípulo de Georg Lukács, vivendo atualmente em Londres. É uma coletânea de artigos que trata das origens e profundidade da crise econômica mundial, fazendo uma crítica devastadora das engrenagens que caracterizam o sistema metabólico do capital.

Para além da fenomenologia da crise atual, vários autores críticos procuraram descortinar os fundamentos estruturais e sistêmicos do derretimento e liquefação do sistema de capital. Robert Kurz, por exemplo, vem alertando desde 1990 que a crise que levou à falência os países do “socialismo real”, com a URSS à frente do Segundo Mundo, a mesma que, dez anos antes, devastara o Terceiro Mundo, era expressão de uma crise do modo de produção de mercadorias que depois migraria em direção ao coração do sistema capitalista. François Chesnais apontou as complexas conexões existentes entre produção, financeirização e mundialização do capital, pois parte da riqueza advinda da “economia real” é canalizada para a esfera financeira e infla o capital fictício.

Mas desde os anos 1960 é Mészáros que vem sistematicamente assinalando a crise que já começava a assolar o sistema global do capital. Para ele, as rebeliões de 1968 – ocorridas no coração dos países centrais –, bem como a queda da taxa de lucro e o início da monumental reestruturação produtiva do capital datado de 1973 já eram expressões da mudança substantiva que se desenhava tanto no sistema capitalista quanto no próprio sistema global do capital. E mais, demonstrava a falência dos dois sistemas estatais de controle e regulação do capital vigentes no século XX: o keynesiano, que vigorou nas sociedades européias marcadas pelo welfare state, e o do tipo soviético. Em ambos os casos, o ente político regulador fora desregulado, ao final do longo período, pelo próprio sistema sóciometabólico do capital.

A análise de Mészáros o leva a constatar que o sistema de capital por não ter limites da sua expansão, acaba por constituir-se num processo incontrolável e profundamente destrutivo. Conformados pelo que se denomina “mediações de segundo grau” – quando tudo passa a ser controlado pela lógica de valorização do capital, sem que se leve em conta os imperativos humano-sociais vitais – a produção e o consumo supérfluos acabam gerando a corrosão do trabalho, com sua conseqüente precarização e o desemprego estrutural, além de impulsionar a destruição da natureza em escala global jamais vista anteriormente.

Ao contrário dos ciclos que conformaram o capitalismo ao longo da história, alternando períodos de expansão e crise, encontramo-nos, desde a década de 70, no que o autor denomina depressed continuum com aspectos de uma crise estrutural. Os mecanismos de “administração de crises” seriam cada vez mais recorrentes e cada vez mais insuficientes, uma vez que a disjunção radical entre produção para as necessidades sociais e auto-reprodução do capital se tornava a tônica do capitalismo contemporâneo, gerando conseqüências devastadoras para a humanidade.

O que será da humanidade quando menos de 5% da população mundial – os norte-americanos – consomem 25% do total dos recursos energéticos disponível, SE os 95% restantes viessem a adotar o mesmo padrão de consumo?

Ou seja, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. A questão não é mais ideológica, e sim vital.

 

 

*A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango Fantasma (1977), O Animal dos Motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora (1986), Toda Prosa (2002) e Caim (2006). Participou de várias antologias importantes no Brasil e no exterior. Organizou três delas - uma das quais, Contos eróticos femininos, editada na Alemanha. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura brasileira contemporânea, jornalista e publicitária.

 

 



Escrito por Menalton às 16h55
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crônicas


Desencanto

By José Saramago

Todos os dias desaparecem espécies animais e vegetais, idiomas, ofícios. Os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Cada dia há uma minoria que sabe mais e uma minoria que sabe menos. A ignorância expande-se de forma aterradora. Temos um gravíssimo problema na redistribuição da riqueza. A exploração chegou a requintes diabólicos. As multinacionais dominam o mundo. Não sei se são as sombras ou as imagens que nos ocultam a realidade. Podemos discutir sobre o tema infinitamente, o certo é que perdemos capacidade crítica para analisar o que se passa no mundo. Daí que pareça que estamos encerrados na caverna de Platão. Abandonamos a nossa responsabilidade de pensar, de actuar. Convertemo-nos em seres inertes sem a capacidade de indignação, de inconformismo e de protesto que nos caracterizou durante muitos anos. Estamos a chegar ao fim de uma civilização e não gosto da que se anuncia. O neo-liberalismo, em minha opinião, é um novo totalitarismo disfarçado de democracia, da qual não mantém mais que as aparências. O centro comercial é o símbolo desse novo mundo. Mas há outro pequeno mundo que desaparece, o das pequenas indústrias e do artesanato. Está claro que tudo tem de morrer, mas há gente que, enquanto vive, tem a construir a sua própria felicidade, e esses são eliminados. Perdem a batalha pela sobrevivência, não suportaram viver segundo as regras do sistema. Vão-se como vencidos, mas com a dignidade intacta, simplesmente dizendo que se retiram porque não querem este mundo.




Escrito por Menalton às 16h12
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Para os amantes do conto

Olhaí, pessoal, um texto precioso do Marcelo Spalding, a respeito do conto, sua tipificação. Pode ser encontrado no endereço abaixo:

http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=2304.

 

 



Escrito por Menalton às 08h18
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E la nave vá

 

Não aceitamos reclamações


Melhor não esquecer: Barak Obama não foi eleito presidente do mundo. E quando ele treme a voz para falar "América", não está nem um pouco preocupado com a gente daqui de baixo.

 

Postado por Ronaldo Monte às 8:34 AM

 

 

Visite meus blogs:

blog-do-rona.blogspot.com

memoriadofogo.blogspot.com

  Release Date: 21/1/2009 07:07



Escrito por Menalton às 09h43
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Crise

 

A outra crise

Janeiro 16, 2009 by José Saramago

Crise financeira, crise económica, crise política, crise religiosa, crise ambiental, crise energética, se não as enumerei a todas, creio ter enunciado as principais. Faltou uma, principalíssima em minha opinião. Refiro-me à crise moral que arrasa o mundo e dela me permitirei dar alguns exemplos. Crise moral é a que está padecendo o governo israelita, doutra maneira não seria possível entender a crueldade do seu procedimento em Gaza, crise moral é a que vem infectando as mentes dos governantes ucranianos e russos condenando, sem remorsos, meio continente a morrer de frio, crise moral é a da União Europeia, incapaz de elaborar e pôr em acção uma política externa coerente e fiel a uns quantos princípios éticos básicos, crise moral é a que sofrem as pessoas que se aproveitaram dos benefícios corruptores de um capitalismo delinquente e agora se queixam de um desastre que deveriam ter previsto. São apenas alguns exemplos. Sei muito bem que falar de moral e moralidade nos tempos que correm é prestar-se à irrisão dos cínicos, dos oportunistas e dos simplesmente espertos. Mas o que disse está dito, certo de que estas palavras algum fundamento hão-de ter. Meta cada um a mão na consciência e diga o que lá encontrou.

Publicado em O Caderno de Saramago



Escrito por Menalton às 19h36
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Atualidades

                                    O GUETO DE GAZA

 

 

 

                                   Eu me lembro com intensa nitidez dos profundos olhos aveludados e escuros daqueles homens, daquelas moças. Passei a conhecê-los nos Fóruns Sociais Mundiais de Porto Alegre - costumava chegar quase na hora do começo da passeata de abertura, e quando meus amigos me perguntavam:

                                   - Vamos todos juntos?

                                   Eu não titubeava:

                                   - A gente se encontra depois. Vou junto com quem tiver mais necessidade de apoio. Vou ver se encontro o pessoal do Iraque, ou da Palestina...

                                   Sempre encontrava o da Palestina. Eram homens de profundos olhos inteligentes e sofridos; eram moças com olhos iguais, algumas vestidas como certas figuras bíblicas femininas que pintores do Renascimento pintaram, e sempre com tamanha fé na Justiça! Vinham em poucas pessoas lá do seu mundo distante e garroteado, poderiam sumir no meio de multidões de 100.000 pessoas com as suas humildes "hattas"[1], mas eram eles os mais visíveis, porque as pessoas que se abalavam até os Fóruns Sociais Mundiais bem sabiam da realidade torturante daqueles irmãos. Na primeira vez que desfilei com eles decerto pareci-lhes estranha - não falávamos uma palavra sequer um da língua do outro, mas já lá no final, chegando ao anfiteatro do Pôr-do-Sol (quanta saudade!), alguém serviu de intérprete e contou para um dos palestinos que eu perdera um emprego por defender a Palestina. O homem de profundos olhos de veludo deu uma risada contagiante, e respondeu algo que também me foi traduzido: ele também perdera o emprego por ser palestino! Nosso simpático contato sem palavras começou ali.

                                   Em outras ocasiões em que nos encontramos eles já me recebiam calorosamente com seus olhos que tudo expressavam, e que tinham uma ternura aveludada que poderia adoçar o mundo.

                                   Depois que os Fóruns Sociais Mundiais saíram de Porto Alegre e foram para outros países, passamos a ter uma palavra de contato: quando nos encontrávamos, sempre primeiro na passeata de abertura, apontávamos uns para os outros e dizíamos: "Porto Alegre!", palavra chave que, aliada aos olhos profundos e misteriosos deles, significava todo um caloroso discurso. E nos abraçávamos como irmãos que somos (ou eram? Estarão vivos?), e na passeata de Caracas/Venezuela, um dos homens mais velhos tirou da sua mochila uma belíssima bandeira da Palestina em seda verde, vermelha branca e preta, e me deu. Sorrimos um para o outro e dissemos a palavra mágica:

                                   - Porto Alegre! - e eu guardo com imenso carinho aquela bandeira de seda assim como a recebi, talvez ainda trazendo entretecido nos seus fios finos esporos ou pólen de plantas ou de outras formas de vida daquela distante Palestina onde provavelmente não poderei ir no decorrer da minha vida, pois envelheço, e o gueto que é a Faixa de Gaza está cada vez mais inacessível, e a mágoa da minha desesperança me faz pensar muito na solução final[2] dada ao Gueto de Varsóvia...[3]

                                   Vejo as notícias e as fotos na Internet, e sei de tantas coisas, faz tanto tempo! Sei como os meus irmãos da Palestina tem que suportar o cheiro nauseabundo do lixo em decomposição, pois o Estado de Israel não deixa sequer que de lá se retire o lixo... e sei das crianças palestinas que são feridas por obuses lançados por tanques enquanto brincam, e que morrem de hemorragia nos portões do seu gueto porque insensíveis membros do exército israelense dizem que só dali a tantas horas tal portão poderá ser aberto, para a criança chegar a um hospital... e sei de detalhes que me deixam com vergonha por ser chamada de humana, pois um exército a serviço de também ditos humanos judeus faz coisas que quase não são críveis, como derrubar um edifício inteirinho para matar um único homem a quem perseguem, e que sabem que está escondido no poço do elevador... ou esse mesmo exército lançar um míssel sobre uma inocente festa de casamento, ou sobre uma formatura de guardas de trânsito... 

                                   Mil páginas seriam poucas para enumerar todos os horrores que sei, que tenho lido, tenho sabido, tenho aprendido sobre o que o governo de Israel faz com o Gueto de Gaza sob os olhos de todo o mundo, como se ninguém se importasse. O espaço, aqui, não permite entrar nas causas históricas dos acontecimentos, mas é bom aprender a respeito, para se entender que Israel não tem razão, que os horrores que vêm desde a década de 1940 são dos mais abjetos da humanidade. O que me horroriza ainda mais, neste momento, são as fotos que não param de chegar de Gaza, de crianças carregadas nos braços dos pais, sem os pés e parte das pernas, com tendões e nervos que sobraram retorcidos como se fossem molas de metal, ou das fileiras de meninos e meninas nos seus trajes de frio, mortinhos, prontos para o funeral, e das caras sem consolo dos pais que ali estão, ou daquele menininho morto e ensangüentado, que o pai carrega no colo embrulhado na bandeira, bandeira igual àquela que tenho, menininho que nunca terá nos olhos aquela força forte como aço e suave como veludo e que nunca entenderá a palavra "Porto Alegre" - de novo digo que mil páginas seriam poucas para contar sobre cada foto, cada fato, cada texto e cada análise que tenho lido - um último fio que me une à esperança é a existência daquela gente de Israel que se nega ao crime, daqueles soldados israelenses que preferem a prisão do que ir assassinar seus irmãos já quase mortos de fome, frio e sede no gueto vizinho - pois Gaza hoje tem 1.500.000 habitantes trancafiados sem recursos numa área de 350 quilômetros quadrados, o que é mais ou menos a metade do tamanho desta minha pequena cidade de Blumenau...

                                   Não há como dizer "enfim", para um texto como este. A dor e a mágoa por se saber que tais injustiças continuam acontecendo diante do mundo é uma coisa que poderia me matar de angústia, e então tenho que reagir escrevendo, que é o meu jeito de ser - mas o que escrever, se todos os grandes escritores, todos os grandes pensadores deste mundo já escreveram tudo o que eu gostaria de escrever, pois não é só a mim que a indignação arrasa - e por todos os lados as populações estão saindo às ruas para protestar contra este massacre inumano? Então achei que poderia escrever sobre os meus palestinos, aqueles que sabem a palavra "Porto Alegre", e que tem aqueles olhos profundamente cheios de significado, força e doçura. Então penso se estarão vivos, se aquelas lindas moças não serão hoje cadáveres só com meia cabeça, ou se os netinhos daqueles homens não estejam, talvez, com ferimentos como se fossem couve-flores  de sangue nas suas barriguinhas de meninos mortos, ou se meus próprios amigos já não terão vidrados e frios os seus olhos que eram cheios de doçura e de força...

                                   Ah! Palestina, ah! Palestina, como me dóis cá dentro do meu peito que parece estraçalhado... Ah! Palestina, ah! Palestina, que me resta fazer além de chorar angustiadamente, como estou a fazê-lo agora?

 

 

                                                           Blumenau, 06 de Janeiro de 2009.

 

 

                                                           Urda Alice Klueger

                                                           Escritora e historiadora

 


[1] Hatta: Lenço palestino, quadriculado de preto e branco, ou de vermelho e branco, que se tornou um símbolo de resistência. Era usado por Yasser Arafat.

[2] Solução final: expressão usada pelo nazismo que significava, a grosso modo, "matar todos".

[3] Gueto de Varsóvia: onde 380.000 judeus foram implacavelmente mortos pelos nazistas até a última pessoa. Procurar se informar melhor a respeito. Hoje é o Estado de Israel que repete a história, matando sem piedade os palestinos da Faixa de Gaza.



Escrito por Menalton às 11h43
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A morte do editor?

 

Editores

Dezembro 18, 2008 by José Saramago

Voltaire não tinha agente literário. Não o teve ele nem nenhum escritor do seu tempo e de largos tempos mais. O agente literário simplesmente não existia. O negócio, se assim lhe quisermos chamar, funcionava com dois únicos interlocutores, o autor e o editor. O autor tinha a obra, o editor os meios para publicá-la, nenhum intermediário entre um e outro. Era o tempo da inocência. Não quer isto dizer que o agente literário tenha sido e continue a ser a serpente tentadora nascida para perverter as harmonias de um paraíso que, verdadeiramente, nunca existiu. Porém, directa ou indirectamente, o agente literário foi o ovo posto por uma indústria editorial que havia passado a preocupar-se muito mais com um descobrimento em cadeia de best-sellers que com a publicação e a divulgação de obras de mérito. Os escritores, gente em geral ingénua que facilmente se deixa iludir pelo agente literário do tipo chacal ou tubarão, correm atrás de promessas de vultosos adiantamentos e de promoções planetárias como se disso dependesse a sua vida. E não é assim. Um adiantamento é simplesmente um pagamento por conta, e, quanto a promoções, todos temos a obrigação de saber, por experiência, que as realidades ficam quase sempre aquém das expectativas.

Estas considerações não são mais que uma modesta glosa da excelente conferência pronunciada por Basílio Baltasar em finais de Novembro no México, com o título de "A desejada morte do editor", na sequência de uma entrevista dada a "El País" pelo famoso agente literário Andrew Willie. Famoso, digo, embora nem sempre pelas melhores razões. Não me atreveria, nem seria este o lugar adequado, a resumir as pertinentes análises de Basilio Baltasar a partir da estulta declaração do dito Willie de que "O editor é nada, nada" e que me recorda as palavras de Roland Barthes quando anunciou a morte do autor... Afinal, o autor não morreu, e o ressurgimento do editor amante do seu trabalho está nas mãos do editor, se assim o quiser. E também nas mãos dos escritores a quem vivamente recomendo a leitura da conferência de Basilio Baltasar, que deverá ser publicada, e um seu consequente debate.

Publicado em O Caderno de Saramago | Comments Off

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Escrito por Menalton às 06h55
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Lançamento

                                                                  

Meu amigo Vasco Pereira de Oliveira acaba de lançar mais um livro de poemas, e, para apresentá-lo, vou roubar um pedaço da orelha de Ely Vieitez Lisboa.

No último poema que fecha esse excelente novo livro de Vasco Pereira de Oliveira, os versos resumem todas as características do poeta: ritmo, criatividade, síntese e um subjetivismo que se alteia ao universalismo. É uma pequena obra-prima: Dos sonhos quase impossíveis/há um que me capeia/ver a Terra, da Lua/em noite de Terra cheia.

Transcrevo, como amostra, o poema da página 12.

Receita

 

Como faço um poema?

Pego um pesado dicionário

e bato com ele na mesa.

As palavras vão caindo

se enfileiram, conversam, se entendem

e vão formando os versos.

 

Umas ficam pelo chão,

mas não se perdem.

Creio que formam, em silêncio,

poemas tristes que serão varridos.

 

A vassoura ainda não aprendeu a ler.

 



Escrito por Menalton às 16h36
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